[Cipriano Dourado]

[Cipriano Dourado]
[Plantadora de Arroz, 1954] [Cipriano Dourado (1921-1981)]

domingo, 5 de março de 2017

[1573.] ADMISSÃO DE MULHERES NA FUNÇÃO PÚBLICA - 1910 [I]

* ADMISSÃO DE MULHERES NA JUNTA DO CRÉDITO PÚBLICO - MINISTÉRIO DAS FINANÇAS *

POR DECRETO, COM FORÇA DE LEI, DE 19 DE DEZEMBRO DE 1910, DA AUTORIA DO MINISTRO DAS FINANÇAS JOSÉ RELVAS, SÃO ADMITIDAS AS PRIMEIRAS 15 MULHERES NA FUNÇÃO PÚBLICA

Só são admitidas senhoras com menos de  25 anos de idade e é dada preferência a órfãs de empregados civis, condições contestadas pela Liga Republicana das Mulheres Portuguesas em 27 de Dezembro do mesmo ano.

Um ano depois, segundo artigo no jornal O Mundo, eram já (só) 21 mulheres a trabalhar na Junta do Crédito Público:
[O Mundo, 1911/11/02] 

«Feminismo em acção - As mulheres nas repartições do Estado – O trabalho das mulheres excede o dos homens em mais de um terço

Uma das maiores regalias que a República concedeu à mulher, foi a sua admissão nas repartições do Estado. Na Junta do Crédito Público criaram-se secções especiais, onde foram admitidas algumas senhoras, que com grande êxito se têm desempenhado da sua missão. Achámos interessante obter algumas informações sobre o assunto, e por isso procurámos ontem na sua secretária um dos mais antigos funcionários da Junta do Crédito Público, que nos recebeu amavelmente, acedendo de bom grado ao nosso pedido. 
- A admissão das senhoras na Junta do Crédito Público foi, não há dúvida, de grandíssima vantagem, começa o nosso informador, que é um dos raros republicanos de antes de 5 de Outubro ao serviço da Junta. Ministros e directores-gerais que têm visitado a instalação tecem os mais rasgados elogios a todas as empregadas. Na Junta, o trabalho das mulheres, no ramo de serviço que lhe foi confiado, dá sobre o dos homens mais de um terço na produção. Cada homem colocava por dia em ordem rigorosa 5.000 cupões e registava 12.000. Cada mulher coloca 6.000 a 8.000 e regista 18.000 a 20.000 cupões. Como vê, a diferença é assinalável...
- Foram já admitidas mais algumas empregadas? 
- Sim senhor. Tendo-se verificado a superioridade do trabalho das mulheres, a Junta do Crédito Público substituiu já seis assalariados por seis mulheres. Assim, a secção criada para 15 empregadas, por decreto da República, conta actualmente 21 e tem já senhoras empregadas no serviço de contabilidade. 
- Parece-lhe então que foi uma grande obra da República? 
- Não há dúvida. Foi o definitivo triunfo das reivindicações feministas. Verificam-se logo as vantagens dessa medida pelos bons resultados obtidos. Houve de princípio, como era natural, umas certas dificuldades na admissão, na instalação e disciplina indispensável, mas tudo se conseguiu felizmente com o esforço e boa vontade do director. Há mais de 30 anos que se pedia aos presidentes da Junta e aos governos que, a exemplo do que se praticava no estrangeiro, fossem confiados à mulher os trabalhos de colocação e registo de cupões, que demandam paciência e aplicação especial. Levantaram-se sempre dificuldades e só agora pôde conseguir-se a instalação, que honra a República e a Junta, e que abre a porta das repartições públicas à mulher portuguesa. 
- Parece-lhe então que serão criadas novas secções em outros estabelecimentos públicos? 
- Tenho a certeza. É preciso, porém, que as formalidades da admissão não sejam tão restringidas à certidão de pobreza, como fixa o decreto que criou a secção na Junta. O que é essencial é exigir-se seriedade, para o regular andamento dos trabalhos...»
[O Mundo, 02/11/1911]