[Cipriano Dourado]

[Cipriano Dourado]
[Plantadora de Arroz, 1954] [Cipriano Dourado (1921-1981)]

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

[1073.] BERENICE PEREIRA GOMES [I]

[1913-2004]

[Berenice com o irmão, in Soeiro Pereira Gomes na esteira da Liberdade, Edição da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira e Museu do Neo-Realismo, 2009]

Professora do ensino primário. 

Filha de Celestina Soeiro Pereira Gomes e de Alexandre Pereira Gomes, nasceu a 3 de Março de 1913 e morreu, no Porto, a 21 de Fevereiro de 2004. 

Irmã de Joaquim, Alice, Alexandre, Jaime e Alfredo Pereira Gomes, nasceu, tal como os últimos quatro, em Espinho, na casa da tia-avó Leopoldina da Costa, que desempenhava o cargo de chefe dos telefones e era também parteira naquela localidade. 

Oriunda de uma família da média burguesia rural do concelho de Baião, cresceu e viveu em Gestaçô até 1924, ano em que o pai, proprietário rural de ideias republicanas, “que soube transmitir a todos os filhos, amplos ideais de liberdade e democracia” [Giovanni Ricciardi, p. 116], se mudou com os quatro filhos mais novos para o Porto, onde Alice Pereira Gomes [1910-1983] estudava, enquanto Joaquim Soeiro Pereira Gomes [14/04/1909-05/12/1949] frequentava em Coimbra o curso de engenheiros agrícolas da Escola Nacional de Agricultura. 

Se a intervenção política de Berenice não pode ser equiparada à de Joaquim ou de Alice, em determinado momento a “passionária” da família e activista do Socorro Vermelho Internacional presa em Outubro de 1936, juntamente com Adolfo Casais Monteiro, foi, no entanto, uma das centenas de activistas da Delegação do Porto da Associação Feminina Portuguesa para a Paz, sendo a sócia nº 329. 

[João Esteves]

[1072.] VASCO PAIVA [I]

* CRÓNICAS DE UM TEMPO NOVO || NOVEMBRO DE 2014 *

  

[Coimbra, Lápis de Memória, 2014]

Numa cuidada edição de Lápis de Memória, pequenas Histórias de Homens e Mulheres que em terras de Aveiro, de Coimbra, de Vila Real, entre 1974 e 1988, quiseram e souberam lutar por um "Tempo Novo".

Para além do testemunho sobre pessoas - anónimas ou conhecidas -, episódios, acontecimentos vividos fraternalmente, com humor, camaradagem e "imensa alegria", constitui um importante documento sobre as esperanças que o 25 de Abril trouxe e os obstáculos diários que muitos tiveram de transpor para o levar a certas terras e zonas.

Escrito de uma forma simples mas cativante, tão cativante que se lê sem parar, não foi fácil encontrá-lo nas actuais livrarias! Sinais dos  tempos...

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

[1071.] MARIA IRENE COELHO CORTESÃO ABREU [I]

* IRENE CORTESÃO *
[1924-2010]


Professora. 

Nasceu na freguesia de Cedofeita, Porto, a 23 de fevereiro de 1924, filha de Elvira Peixoto Coelho Cortesão Abreu [1890-1982], que tinha a instrução primária, e de Camilo Zuzarte Cortesão Abreu [17/06/1890 – 22/02/1966], que chegou a estudar na Faculdade de Letras e abandonou-a por se envolver em questões políticas. 

O avô materno era proprietário de fábricas em Vila do Conde; a mãe era prima de Leonardo Coimbra; e o pai era primo direito de Jaime Cortesão, tendo Irene Cortesão casado com o filho deste, o médico António Augusto Zuzarte Cortesão [1916-1995], e de Maria Ester Zuzarte Cortesão [24/06/1882 – 12/03/1914] que, em 20 de Novembro de 1910, presidiu à sessão fundadora do Núcleo de Cantanhede da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas e foi eleita sua Secretária. 

Oriunda de uma família com intenso envolvimento político republicano e, posteriormente, oposicionista, tendo o pai participado nas primeiras revoltas contra a Ditadura Militar, andou fugido, foi deportado para S. Tomé e Príncipe, viveu em Espanha e, finalmente, exilou-se no Brasil onde faleceu, a mãe desempenhou papel crucial na sua formação, transmissão de valores, educação e estabilidade. 

Irene Cortesão, tal como a irmã Elvira, fez em casa a instrução primária com professoras particulares, estudou no Liceu Carolina Michaëlis por decisão da mãe, onde sofreu algumas contrariedades por não ser baptizada e não ter aderido à Mocidade Portuguesa Feminina e foi aluna de Natércia Freitas Guimarães da Silva [Medina] [1914-1963], professora efectiva de Biologia e futura activista da AFPP (sócia nº 193). Licenciou-se em Ciências Biológicas na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto. 

Na década de 40, juntamente com a irmã Maria Elvira Coelho Cortesão Abreu [25/03/1921 – Dezembro de 2011], integrou o grupo fundador da Delegação do Porto da Associação Feminina Portuguesa para a Paz, onde era a sócia nº 124 segundo apontamentos de Irene Castro, tendo a irmã mais nova, Maria Luísa Coelho Zuzarte Cortesão [n. 1932] pertencido à mesma agremiação. 

O marido consta do rol de sócios auxiliares da AFPP/Porto, onde era o sócio nº 135, foi por duas vezes preso [1935, 1958], ambos pertenceram ao MUD, sendo muitas vezes em casa das irmãs Cortesão que se reunia a sua Comissão Feminina, e participaram na campanha presidencial de Norton de Matos em 1949. 

Enquanto activista da AFPP, Irene Cortesão participou regularmente nas suas iniciativas e reuniões, tendo sido entrevistada por Lúcia Serralheiro em 8 de Abril de 2002 sobre essa militância [Mulheres em grupo contra a corrente, Edições Evolua, 2011]. 

O percurso profissional enquanto professora foi afectado por pertencer a uma família oposicionista. Segundo relato de Vanda Gorjão, que entrevistou Irene Cortesão em 21 de Fevereiro de 1999, então com 74 anos, “começou a dar aulas no Colégio Araújo Lima, «um colégio de gente que, em princípio, era de esquerda». Quando precisou de legalizar a sua situação, o Ministério da Educação recusou-lhe o diploma de ensino particular. Sem conseguir colocação em nenhum estabelecimento de ensino, ficou dois anos em casa, dando lições particulares e escrevendo sebentas à máquina. Um período que recorda como muito difícil: «fui uma aluna bem classificada, todas as minhas colegas ocuparam lugares na Faculdade e eu fiquei em casa. Foi muito duro. [...] Senti imenso que estava a ser realmente penalizada»”. Por fim, devido “a intervenção de um parente e da família de uma ex-aluna, movendo influências, permitiram-lhe obter o diploma do Ministério, quando o mesmo já lhe tinha sido recusado antes. «Pude então dar aulas. Não continuei no Colégio [porque] tinha um ambiente pouco do meu agrado: eram meninas bem. Gostei muito mais de passar para o ciclo preparatório»” [Vanda Gorjão, Mulheres em tempos sombrios. Oposição feminina ao Estado Novo]. 

Após a data de 25 de Abril de 1974, foi autora de programas e manuais escolares e, segundo Lúcia Serralheiro, foi pioneira na escrita de um manual de educação sexual. 

Sócia nº 1635 da Associação de Solidariedade Social dos Professores. 

A Câmara Municipal do Porto, presidida por Fernando Cabral, atribuiu-lhe a Medalha de Mérito em 15 de Junho de 1989. 

[João Esteves]

terça-feira, 1 de setembro de 2015

[1070.] MARIA HERMÍNIA ALVES DE MIRANDA MACÁRIO

* CONSELHO NACIONAL DAS MULHERES PORTUGUESAS || FIGUEIRA DA FOZ *

- MARIA HERMÍNIA MIRANDA MACÁRIO -

Apesar de alguns estudos fundamentais, como os de Vanda Gorjão, Manuela Tavares, Lúcia Serralheiro, Célia Costa e Cecília Honório, muitos dos nomes que participaram no associativismo feminino nas primeiras três décadas do século XX e, posteriormente, nas agremiações conotadas com a Oposição à Ditadura de 48 anos continuam esquecidos e não tem sido fácil reconstruir os seus percursos, actividades, militâncias e sociabilidades.

Porque não integravam o grupo de dirigentes ou eram mais discretas, não sentiram necessidade de valorizar a sua intervenção, remeteram-se, ou foram remetidas, ao silêncio, continuando na penumbra.

Maria Hermínia Alves de Miranda Macário, casada com o juiz Manuel Ribeiro Macário e mãe de Maria Manuela Miranda Macário, dirigente do MUD Juvenil e presa em 7 de Março de 1955, é um desses nomes. 

De tal modo discreta que a filha, em conversa com Cecília Honório, sugere que, ao contrário do pai que tanto a marcou, a mãe era uma figura apagada [Mulheres contra a Ditadura, Bertrand Editora, 2014, p. 176]. E no entanto, Maria Hermínia Miranda Macário integrou, em 1946, o grupo das catorze subscritoras que, através de abaixo-assinado dirigido à Presidente do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, Maria Lamas, solicitou a criação duma delegação na Figueira da Foz, “tendo em vista levar a efeito várias realizações de alcance cultural e social, no sentido de elevar a mulher a um grau de maior dignificação e de prestar à criança a assistência de que carece” [Abaixo-assinado dirigido à Presidente do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, documentação gentilmente cedida por D. Natividade Correia].

Quão importante e urgente se torna recuperar cada um destes nomes que, mesmo que pontualmente, fizeram-se ouvir, tomaram posição e assumiram riscos. 

[João Esteves]