[Cipriano Dourado]

[Cipriano Dourado]
[Plantadora de Arroz, 1954] [Cipriano Dourado (1921-1981)]

sábado, 22 de agosto de 2015

[1069.] MARIA SOFIA CARRAJOLA POMBA AMARAL DA GUERRA [II]

[18/07/1906 - 1976]

[Sofia Pomba Guerra]

 [Sofia Pomba Guerra com o Marido, Dr. Guerra]
 [Fotografias cedidas pela neta Maria Leonor Rodrigues Eisman]

Na sequência do esboço biográfico publicado de Maria Sofia Carrajola Pomba Amaral da Guerra, antifascista e conceituada ativista anticolonialista, publicam-se estas duas belíssimas fotografias, gentil e oportunamente enviadas por uma das suas netas, a Sr.ª D. Maria Leonor Guerra Rodrigues Eisman, a quem muito se agradece.

É muito importante que os nomes tenham rosto, e que este não seja apenas o que consta do Registo Geral de Presos da PIDE, sendo que os familiares são fundamentais na preservação da memória e na correção de imprecisões.

O nome completo de Sofia Pomba Guerra é Maria Sofia Carrajola Pomba Amaral da Guerra e não Maria Sofia Carrejola Pomba do Amaral Guerra como, erroneamente, se publicou aqui.

Outros dados cedidos pelas netas de Sofia Pomba Guerra serão brevemente acrescentados.

Tal como Adelaide Cabete [1867-1935], também Sofia Pombo Guerra nasceu em Elvas.


sábado, 15 de agosto de 2015

[1068.] CLAUDINA GAUDÊNCIO [I]

* CLAUDINA DE ALMEIDA HENRIQUES GAUDÊNCIO *

[n. 22/04/1907]



Filha de Felicidade de Almeida e de Honorato Henriques, nasceu em Lisboa a 22 de Abril de 1907.

Casada com Amadeu Gaudêncio [04/04/1889 - 13/10/1980], aderiu em 1945 ao Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, onde, segundo estudo de Célia Costa, marcou presença em quinze das reuniões realizadas entre Novembro de 1945 e Junho de 1947.

No início da década de 50, militou na Associação Feminina Portuguesa para a Paz. Desempenhou, em 1951, as funções de 1.ª Vogal do Conselho Fiscal.

Madrasta de Maria da Conceição Gaudêncio [Soares], casada com Tertuliano Lopes Soares, médico-cirurgião, irmão mais velho de Mário Soares, e de Josefina Gaudêncio [Simões], casada com o arquiteto João Simões [1908-1995], tendo ambas aderido ao CNMP, então presidido por Maria Lamas, no mesmo ano de 1945 [“Novas sócias”, Alma Feminina, nº 14, Novembro, 1945].

Josefina Gaudêncio Simões, mãe da arquiteta Maria João Gaudêncio Simões George [1948-2006], participou em algumas das reuniões do CNMP em conjunto com Claudina Gaudêncio e militou no mesmo período na Associação Feminina Portuguesa para a Paz, onde desempenhou, entre 1948 e 1951, cargos nos Corpos Gerentes: 2.ª Vogal da Direcção (1948), Vice-Presidente da Assembleia Geral (1949, 1950) e 2.ª Secretária da Direcção (1951).

Emília Gaudêncio, sobrinha de Claudina Gaudêncio, também aderiu ao CNMP em 1945.

[João Esteves]

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

[1067.] 40 VIDAS POR ABRIL [II]

* RESISTÊNCIA NO FEMININO *

[Porto, Modo de Ler, 2015]

A investigação, embora morosa, torna-se fascinante e resulta do permanente cruzamento de informações, da atualização de dados, mesmo quando parecem quase irrelevantes, e da reconstrução de pequenos puzzles.

Há três organizações de mulheres que, para além das lutas pelos direitos das mulheres, devem também ser enquadradas, pelo número e nome das militantes envolvidas, nas lutas oposicionistas contra a Ditadura: o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas [1914-1947], a Associação Feminina Portuguesa para a Paz [1935-1952] e o Movimento Democrático de Mulheres [1969-1974], esta última ainda em atividade.

A Associação Feminina Portuguesa para a Paz, quer em Lisboa, em Coimbra ou no Porto, englobou oposicionistas que, pela sua intervenção, umas vezes visível, outras quase na sombra, deviam merecer atenção privilegiada quando se pretende estudar globalmente o difícil combate a 48 anos de continuada Ditadura.

A importância da AFPP, e da  Delegação do Porto já parcialmente estudada por Lúcia Serralheiro em Mulheres em Grupo Contra a Corrente [Edições Evolua, 2011], acaba por estar subjacente nalgumas destas 40 vidas apresentadas nesta edição simultaneamente simples, cuidada e apelativa.

Senão, vejamos, esperando que os dados estejam corretos:

- O terceiro testemunho é de Almor Viegas, economista. Ora a sua esposa [n. 1927], Maria Amélia Viegas, com quem casou em 1947, aderiu em 1949 à Delegação do Porto da AFPP, sendo a sócia nº 429. Era então uma jovem com 22 anos, não tendo tido papel relevante nas suas atividades, embora fosse a reuniões e participasse nalgumas iniciativas, como referiu na entrevista realizada no Porto por Lúcia Serralheiro em 29 de Março de 2001. Não pertencia ao Partido Comunista, apesar do marido ser militante. 

- O vigésimo primeiro testemunho envolve João Huet Viana Jorge, engenheiro. A mãe, Maria Luísa Huet de Bacelar Carrelhas [02/05/1912 - 08/04/1997], casou em 21 de Julho de 1937  com Joaquim Guerreiro Viana Jorge [1906-1985]; aderiu ao Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas em 1940, por proposta de Maria da Luz Albuquerque, e presidiu ao núcleo de Vila da Feira, sua terra natal. Irmã de Ema Carrelhas Huet de Bacelar, sócia da Delegação do Porto da Associação Feminina Portuguesa para a Paz.

- O trigésimo primeiro texto é dedicado a Maria Alda Nogueira [1923-1998], ativista que integrou em Lisboa a AFPP e o CNMP quando este era dirigido por Maria Lamas.

- Maria José Ribeiro, o testemunho 34, refere que foi no Porto que se iniciou na sua luta política e evoca, entre outros, os nomes de Maria Teresa Machado Teixeira Ruela [sócia nº 296], de Virgínia Faria de Moura [1915-1998] e de Olívia Vasconcelos [sócia nº 313], todas filiadas na Delegação do Porto da AFPP.

- O número 36 corresponde a Maria Teresa Guimarães de Medina, professora de Ciências da Educação. Neste caso, trata-se de um dos seis filhos da médica Natércia Freitas Guimarães da Silva [Medina] [1914-1963], professora efetiva de Biologia no Liceu Carolina Michaëlis, onde era muito prestigiada e elogiada pelas alunas. Faleceu em 31 de Janeiro de 1963, com apenas 49 anos de idade; era, segundo manuscrito de Irene Castro, a sócia nº 193 da Delegação do Porto da Associação Feminina Portuguesa para a Paz; e deu às sócias um curso de puericultura que foi também de educação sexual. É referenciada por Dr.ª Natércia Guimarães no Caderno de Irene Castro. 

Provavelmente, são pormenores. Mas ajudam a quebrar silêncios, a redescobrir ativistas em tempos difíceis e sombrios, a contextualizar percursos de vida e a valorizar o papel de Homens e de Mulheres na luta contra a Ditadura.

Claro que todos os 40 textos merecem a mesma atenção, mesmo que sob outros olhares, sendo que doze envolvem mulheres.

[João Esteves]

[1066.] 40 VIDAS POR ABRIL [I]

* MEMÓRIAS DA RESISTÊNCIA || 40 DEPOIMENTOS || 2015 *

[Na capa, fragmento do tríptico "O Trabalho e os Dias", pintura de António Fernando]



[1065.] LÍLIA DA FONSECA [II]


[1906-1991]

[in Faces de Eva, Nº 9, 2003]


quinta-feira, 13 de agosto de 2015

[1064.] MARÍLIA PAIS VITERBO DE FREITAS [I]

[1933 - 10/08/2015]

Faleceu na segunda-feira, 10 de Agosto, Marília Pais Viterbo de Freitas. 

Prestigiada enfermeira, licenciada em História, membro do grupo Faces de Eva da FCSH da UNL, autora de dezenas de biografias de enfermeiras e colaboradora das obras coletivas Dicionário no Feminino (Séculos XIX-XX) [LIvros Horizonte, 2005] e Feminae - Dicionário Contemporâneo [CIG, 2013], assinando como M. V. F. [Marília Viterbo de Freitas].

Muito lúcida, ponderada e interventiva, a sua participação nas Faces de Eva e nas suas diversas iniciativas constituíram uma mais-valia. Nem nos períodos em que preocupantes motivos de saúde a obrigavam a abrandar deixou de comparecer e de dar o seu contributo.

Se é quase do domínio público a sua persistente intervenção na área da enfermagem, tendo os diversos órgãos associativos destacado o papel de uma vida dedicada à profissão e ao apoio solidário e efetivo a todas as mulheres que a ela recorreram, Marília Viterbo de Freitas foi também uma consequente antifascista, correndo riscos, muitos riscos, em tempos difíceis.

Isabel Lindim, no livro Mulheres de Armas [Editora Objectiva, 2012], dá conta do seu percurso de militante antifascista, iniciado sobretudo na Faculdade de Letras em finais da década de 1960 quando cursava História, de como passou da consciencialização política à ação e o seu papel altruísta e solidário em albergar nas suas casas ativistas políticos clandestinos, para além de material de propaganda. 

Pelas suas casas passaram, nomeadamente, Vasco Cabral, que na altura "tinha residência fixa em Lisboa e era controlada pela PIDE" [Isabel Lindim, p. 193]  e Carlos Antunes, para além de outras pessoas que "nem sequer chegou a conhecer. Simplesmente confiava em quem as trazia [p. 194].

Se "foi uma das simpatizantes das Brigadas Revolucionárias que emprestou a casa à organização" [Isabel Lindim, p. 191], soube sempre colaborar com todas as organizações que combatiam a ditadura, mantendo-se como uma mulher de esquerda nos 41 anos subsequentes ao 25 de Abril de 1974.

No Dicionário no Feminino [2005], publicou as biografias de  Ana José Guedes da Costa [enfermeira, 14/12/1860 - 12/10/1947]; de Fernanda Falcão Alves Diniz [enfermeira e professora, 08/11/1913 - Novembro de 2001]; e de Maria Fernanda da Silva Rezende [enfermeira, 21/11/1923-3/8/1988].

Em Feminae [2013], saíram as entradas de Laura Guilhermina Martins Ayres [médica e investigadora]; de Lúcia Berner de Vasconcelos [fotógrafa]; de Maria de Lima Mayer Ulrich [escritora e poetisa]; de Maria Eugénia Lopes do Rosário Nunes da Silva Horta [médica, professora e investigadora]; de Maria João Gaudêncio Simões George [arquiteta]; e de Maria Madalena Bagão da Silva Biscaia de Azeredo Perdigão [pianista].

Se todos estes textos merecem ser relidos, merecem particular destaque pelas memórias afetivas os dedicados à arquiteta Maria João Gaudêncio Simões George [1948-2006], precocemente falecida num desastre de viação, e à médica Maria Eugénia Lopes do Rosário Nunes da Silva Horta [1923-1978], cujo convívio datava de há muitos anos, tendo andado com os filhos mais novos ao colo.

Recentemente, em 2012, publicou o livro Vidas de Enfermeiras.



[João Esteves] 

terça-feira, 11 de agosto de 2015

[1061.] LÍLIA DA FONSECA [I]

* MARIA LÍGIA VALENTE DA FONSECA SEVERINO *
[21/05/1906 - 13/08/1991]
[Fotografia publicada em Faces de Eva, nº 9, 2003, cedida pela irmã Hortense de Almeida]

Jornalista, publicista e escritora que ficou conhecida pelo pseudónimo literário de Lília da Fonseca.

Filha “de uma angolana natural de Luanda” [Hortense de Almeida] e de um republicano e maçon, nasceu em 21 de Maio de 1906, “e não em 1916 como sempre declarou nos seus dados biográficos” [H. de Almeida], em Benguela. 

[O Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, Vol. IV (Coordenação de Ilídio Rocha), Publicações Europa-América, 1997, pp. 607-608, apresenta a mesma data de nascimento].

Estudou em Coimbra, no Liceu Infanta D. Maria, e no Porto, na Escola Carolina Michaëlis.  

Foi redactora de A Província de Angola e Jornal de Angola; colaborou nos periódicos Acção, Jornal de Benguela, Modas & Bordados, Os Nossos Filhos e Seara Nova; e idealizou e dirigiu, entre 1950 e 1956, o Jornal-Magazine da Mulher, concretizando o projecto de publicar uma revista mensal dedicada aos problemas das mulheres portuguesas. 

Lília da Fonseca era também um dos proprietários deste magazine, sendo o trabalho de feitura e coordenação efectuado na sua casa, “posto que os meios financeiros para o empreendimento eram muito escassos e não consentiam despesas com instalações próprias” [Gastão de Vasconcelos], e contou com o apoio e a colaboração de intelectuais ligados à oposição à ditadura e que tinham aderido ao Movimento de Unidade Democrática, nomeadamente Alberto Ferreira, Clara Sérgio, Humberto d’Ávila, Lima de Freitas, Nascimento Rodrigues e Gastão de Vasconcelos [Gastão de Vasconcelos, "Jornal-Magazine da Mulher", Dicionário no Feminino (séculos XIX-XX), Lisboa, Livros  Horizonte, 2005].

No editorial de apresentação, explicava-se o seu aparecimento, pretendendo proporcionar uma leitura de temas relacionados com a mulher, “a que coopera com o homem na luta pelas condições de vida, na educação dos filhos, nas melhorias do trabalho”.  Começou com 30 páginas, a partir de 1954 passou a ter 48 e até Fevereiro de 1956 saíram 52 números, sendo que a partir do nº 49, de Setembro de 1955, passou a chamar-se apenas Jornal Magazine, numa tentativa de chegar a um público mais vasto. 

Não deixa de ser relevante a qualidade dos colaboradores deste projecto de Lília da Fonseca, quase todos oposicionistas, referidos por Gastão de Vasconcelos no seu texto para o Dicionário no Feminino: "no conto, Miguel Torga, Fernando Namora, Manuela de Azevedo, José Saramago, Alexandre Cabral, Manuela Porto (prematuramente falecida, infelizmente); em artes e letras, José Régio, Alves Redol, Ilse Losa, Carlos Oliveira, Nascimento Rodrigues; ilustradores, foram Júlio Pomar, Lima de Freitas, Querubim Lapa; sobre teatro, Jacinto Ramos, Fernando Gusmão, Maria Barroso; sobre música, Humberto d’Ávila, João de Freitas Branco, Francine Benoit... No desporto e campismo, encontramos Fernando de Almeida, enquanto em assuntos sobre as “colónias”, escreveram a directora, Lília da Fonseca, Alda Sara, Augusto Casimiro; questões jurídicas foram tratadas por Luz Pinheiro. Foram ainda colaboradores (entre muitos outros, repita-se) José Marinho, Graça Brosque, Isaura Correia Santos". 

É de destacar que o periódico inseriu um depoimento de Maria Barroso sobre a Associação Feminina Portuguesa para a Paz e abordou o caso das enfermeiras dos Hospitais Civis que então não eram autorizadas a casar.

A par do jornalismo, sendo autora de crónicas e de reportagens, publicou, durante mais de 30 anos, novelas, romances, contos, poesias, literatura infantil, onde se notabilizou, e peças de teatro, tendo-lhe sido atribuído, em 1960 e 1963, o Prémio João de Deus. 

Fundou a Cooperativa «Ludus», de livros infantis, e dedicou-se à arte das marionetas, consubstanciada na fundação do Teatro de Branca Flor em 1962 [História do Teatro de Branca-Flor nos seus 20 anos de existência (1962-1982), 1982] e, no seu seio, do Centro de Animação de Fantoches. 

Data da década de 40, quando se fixou definitivamente em Lisboa, a defesa de posições políticas de esquerda e o engrossar da oposição à Ditadura do Estado Novo. 

Na segunda metade da década de 40, durante a presidência de Maria Lamas, militou activamente no Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, tendo, segundo o estudo de Célia Costa, participado em 37 reuniões realizadas entre 10 de Novembro de 1945 e 26 de Junho de 1947, número só superado por Fernanda Tasso de Figueiredo. Algumas das suas obras estiveram expostas na Exposição de Livros Escritos por Mulheres organizada pelo Conselho em 1947. 

Assinou na revista Alma Feminina, órgão do CNMP, um artigo sobre o sufrágio feminino [“O voto da mulher”, Alma Feminina, nº 14, Novembro, 1945, pp. 8-9]. Neste texto, e a propósito do que se passava em França, Lília da Fonseca não só considerava que “quando os governos de todo o mundo forem mistos, é possível que diminua a possibilidade da guerra”, como defendeu, para Portugal, o direito da mulher poder votar nas mesmas condições que o homem. No mesmo escrito, apelou à sua consciência cívica, que não se devia limitar à futilidade dos chás de caridade e das esmolas, “dadas muito embora com carinho e devoção”.

Também marcou presença na Associação Feminina Portuguesa para a Paz, tendo assinado um escrito sobre a Paz no seu Boletim [“A Paz pela transformação do homem”, Boletim da Associação Feminina Portuguesa para a Paz, nº 7, Julho, 1950]. 

A seguir ao fim da Guerra, em Novembro de 1945, foi signatária de um manifesto de intelectuais em que se protestava contra «as limitações de toda a espécie» de que a sua actividade era objecto [Mário Matos e Lemos, Candidatos da Oposição à Assembleia Nacional do Estado Novo (1945-1973). Um Dicionário, Texto Editores, 2009].

Em 1957, com a médica Cesina Bermudes e a escritora Natália Correia, fez parte da Comissão Cívica Eleitoral de Lisboa, que procurava dar enquadramento legal à oposição nas eleições que se avizinhavam. Aquela Comissão organizou, a 4 de Janeiro de 1958, um jantar de homenagem a Lília da Fonseca, a que compareceram cerca de 120 pessoas, entre as quais Cesina Bermudes, e durante o qual se procurou acordar numa estratégia comum para a escolha de um candidato presidencial de toda a oposição, tendo a escritora integrado, posteriormente, a Comissão Central da Candidatura de Arlindo Vicente [José Pacheco Pereira, Álvaro Cunhal – Uma Biografia Política – O Prisioneiro (1949-1960), Vol. 3, Lisboa, Temas e Debates, 2005].

Em 21 de Abril de 1960 proferiu uma conferência na Casa dos Estudantes do Império intitulada "O jornalismo em Angola", tendo já em 1948 estado associada ao Movimento dos Novos Intelectuais de Angola [MNIA], que tinha como lema "Vamos descobrir Angola", onde trabalhou ao lado de outros poetas e escritores, nomeadamente Cochat Osório.

Em 1969, participou no grupo restrito de dez  mulheres que formaram a Comissão Democrática Eleitoral de Mulheres e fez parte da Comissão Distrital da CDE de Lisboa. 

A partir de 1977, e até ao seu falecimento, integrou o Conselho Nacional do Movimento Democrático de Mulheres.

Faleceu em Alverca do Ribatejo, com 85 anos de idade, deixando “um conjunto de 23 obras” inéditas. 

Hortense de Almeida testemunha o que foi a sua vivência em texto publicado na revista Faces de Eva [Hortense de Almeida, “Pioneiras - Lília da Fonseca”, Faces  de Eva. Estudos sobre a Mulher, nº 9, 2003, pp. 167-174, 2003]. 

[João Esteves]

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

[1060.] ALICE MODERNO [V]

* ALICE AUGUSTA PEREIRA DE MELO MAULAZ MONIZ MODERNO *

[11/08/1867 - 20/02/1946]


Poetisa, professora particular de Português e de Francês, jornalista, editora, tradutora, mulher de negócios, republicana e feminista.

Filha de Celina Pereira de Melo Maulaz Moderno e do médico e comendador João Rodrigues Pereira Moderno, descendentes de imigrantes no Brasil onde nasceram e se casaram, Alice Moderno nasceu em Paris, a 11 de Agosto de 1867 e faleceu a 20 de Fevereiro de 1946, em Ponta Delgada, apenas oito dias após Maria Evelina de Sousa, sua companheira de 40 anos. 

Embora tenha nascido em Paris, cidade onde os pais se tinham instalado, o "casal Moderno mudou para a Terceira, ainda no ano do seu nascimento, ali permanecendo durante nove meses. Regressaram a Paris, e só em 1876 vemos de novo Alice Moderno em Angra do Heroísmo e, depois, em Ponta Delgada, onde se fixou a 31 de Agosto de 1883, ano da estreia literária com a publicação da poesia “Morreu”, a que se seguiu, três anos passados, Aspirações, o seu primeiro livro de versos. [Cristina l. Duarte].

Foi a primeira aluna a frequentar o Liceu Nacional de Ponta Delgada, onde se matriculou quando já tinha 20 anos, e cursou o magistério, sendo “muito estimada pelas suas faculdades e processo de ensino” [Inocêncio Francisco da Silva e Brito Aranha, Dicionário Bibliográfico Português, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, Vol. XXII, p. 64]. 

Dirigiu o periódico mensal Recreio das Salas [1888] e o Diário dos Açores, fundou, em Ponta Delgada, o jornal A Folha [05/10/1902 - 15/04/1917], que veiculou as novas ideias feministas, divulgando o que se passava em Portugal e no Mundo, e manteve permuta com a imprensa do continente. 

Mulher combativa e emancipada, que vivia de forma independente devido exclusivamente aos seus trabalhos, tornou-se numa prestigiada activista, nos Açores, das organizações de mulheres da I República.

Militou na Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, na Associação de Propaganda Feminista e na Associação Feminina de Propaganda Democrática

Já em 1906, o “Jornal da Mulher” de O Mundo a considerava como “uma das convictas e sinceras feministas da nossa terra” e, “apesar de estar longe de nós, [...], em todas as cruzadas de propaganda feminista que se empreendam no nosso meio, o estímulo da sr.ª D. Alice Moderno vem sempre, generosamente, animar-nos nas campanhas, as mais difíceis”. 

Colaborou em A Madrugada, órgão da LRMP, na Alma Feminina, periódico do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, e na Revista Pedagógica, dirigida pela professora, e amiga inseparável, Maria Evelina de Sousa. 

Interveio, em 1909, na campanha a favor da aprovação da Lei do Divórcio, quer através de artigos, como subscrevendo o abaixo-assinado posto a circular nesse sentido e, em Agosto de 1912, durante uma das suas frequentes passagens por Lisboa, foi homenageada, juntamente com Evelina de Sousa, companheira de causas, pela Liga. 

Para além das homenageadas, discursaram Agostinho Fortes, Carneiro de Moura, Ana Augusta de Castilho, Maria Veleda e Mariana da Assunção da Silva, tendo esta frisado que “a colectividade se devia orgulhar pela honra da sua presença, que era bem um caso esporádico visto que todas as intelectuais portuguesas, excepto D. Ana de Castro Osório, se têm afastado dela, num injusto retraimento”. Na sua intervenção, Alice Moderno considerou que “em cada membro [...] da Liga Republicana há um paladino glorioso do feminismo”. 

As mesmas duas açoreanas presenciaram iniciativas da Associação Feminina de Propaganda Democrática [1915-1916] – associaram-se à homenagem ao Presidente da República, Bernardino Machado, em Maio de 1916 – e voltaram a merecer atenção especial no Primeiro Congresso Feminista e de Educação, promovida pelo CNMP em 1924, enquanto propagandistas do feminismo e da educação das mulheres no Arquipélago. 

Mulher de negócios, “dirigindo todos os trabalhos da sua oficina tipográfica, uma exploração agrícola” [Revista do Bem, nº 113, 31/01/1912] e correspondente de importantes companhias e casas comerciais e bancárias estrangeiras nos Açores, não se pode ignorar a sua vasta e contínua colaboração em periódicos literários de todo o país: 

Bouquet Literário [1885], semanário literário e pedagógico do Porto; A Alvorada, revista mensal literária e científica de Vila Nova de Famalicão [1887, na homenagem a Camilo Castelo Branco no dia do seu 61.º aniversário]; A Apoteose [19/10/1887], número único comemorativo do sétimo centenário e inauguração da estátua de D. Afonso Henriques; Gazeta das Salas [30/01/1890], de Lisboa; A Festa das Crianças [18/10/1891], de Ponta Delgada; Nova Alvorada [1891-1903], revista mensal literária e científica de Vila Nova de Famalicão; Almanaque das Senhoras [1896, 1899, 1903, 1904, 1913 a 1919, 1923]; A Crónica [1900-1906], revista ilustrada e literária de Lisboa; O País [1901-1904], semanário independente, político, noticioso, crítico, literário e teatral do Porto; Revista de Lisboa [1901-1909]; Folha de Saudação [1902], número único dedicado a António Maria Eusébio, o Calafate; A Sociedade Futura [1902-1904]; Álbum Açoriano [1903], publicado em Lisboa; Jornal das Senhoras [1904-1905]; Alma Feminina [1907-1908], hebdomadário literário e noticioso publicado em Matosinhos; Revista Micaelense [1918-1921]; Os Açores [1922-1924, 1928]; O Despertar de Angeja [1924-1927], semanário independente, noticioso e literário; O Instituto, de Coimbra; Portugal Feminino; A Leitura [1932], publicação de Angra do Heroísmo; e Ínsula (anos 30), revista mensal ilustrada publicada em Ponta Delgada. 

Foi redactora e directora do Diário de Anúncios, periódico de Ponta Delgada do final do século XIX; participou na obra dedicada a Antero de Quental In memoriam, com “Tributo singelo” [1887]; colaborou na publicação A maior dor humana [1889], “coroa de saudades, oferecida a Teófilo Braga e sua esposa para a sepultura de seus filhos” [Inocêncio, vol. XVIII, p. 91]; e utilizou, segundo a recolha de Adriano da Guerra Andrade, os pseudónimos Da Janela do Levante, Dominó Preto, Ecila, Eurico, o Secular, Gavroche, Gil Diávolo, Gyp e Veritas. 

Poetisa consagrada e premiada, saudada por Camilo Castelo Branco, Teófilo Braga e João de Deus, com versos publicados em várias línguas (francês, inglês, alemão, italiano, espanhol, norueguês), traduziu Camões para francês, pertenceu ao Instituto de Coimbra, por proposta de Bernardino Machado, à Sociedade Literária Almeida Garrett, à Sociedade de Geografia de Lisboa, à instituição italiana Luigi di Camoens, e fundou a Sociedade Protectora dos Animais Micaelenses (1911) e o Sindicato Agrícola Micaelense. 

Mulher interventiva, que não se enquadrava nos cânones femininos da sua época, até porque usava o cabelo cortado e fumava [Maria da Conceição Vilhena], a faceta enquanto jornalista está por esmiuçar, bem como o papel que desempenhou na divulgação das ideias feministas nas ilhas. 

A poetisa açoriana Mariana Belmira de Andrade dedicou-lhe, no periódico O Velense, a poesia “Desencanto: A Alice Moderno” [1886]. Tinha então apenas dezanove anos. 

Tal como sublinhou a investigadora Maria da Conceição Vilhena no 40.º aniversário da sua morte, estamos perante “uma conhecida desconhecida”. 

Como refere Cristina L. Duarte, para além de Alice Moderno ter passado a usar cabelo curto desde os dezanove anos, "mais tarde seria considerada excêntrica pelo seu gosto pela camisa branca, com colarinho e gravata preta, acompanhado por chapéu masculino e bengala. Na década de 40, era vista pela manhã nas ruas daquela cidade, fumando charuto, a passear um cãozinho pela trela." [Agenda Feminista, As Mulheres e a República - 2010

Sobre o percurso e ideário enquanto professora, consultar a entrada de Carlos Enes para o Dicionário de Educadores Portugueses [Porto, ASA, 2003]. 

O Dicionário no Feminino (séculos XIX-XX) incluiu a sua biografia [Lisboa, Livros Horizonte, 2005],

Cristina L. Duarte fez um breve esboço biográfico para a Agenda Feminista As Mulheres e a República - 2010.

Adriana Mello fez a entrada para Feminae. Dicionário Contemporâneo [Lisboa, CIG, 2013].  

[João Esteves]

[1059.] MARIA EVELINA DE SOUSA [I]

[01/01/1879 - 12/02/1946]
 [Fotografia assinada e com dedicatória datada de 31/08/1913]


Educadora, professora primária oficial, jornalista, republicana e feminista.

Filha de Décio de Sousa, nasceu em Ponta Delgada em 1 de Janeiro de 1879 e faleceu na mesma localidade açoreana em 12 de Fevereiro de 1946.

Frequentou a escola distrital de habilitação ao Magistério em 1900, obtendo a classificação de 17 valores no exame final, e leccionou sempre na sua terra natal. A partir de 1904, exerceu a docência na Escola de Santa Clara e, em 1908, foi a responsável pela fundação da primeira biblioteca escolar do círculo, o que teve grandes repercussões na comunidade e na imprensa, tendo sido publicado um opúsculo com a colecção de artigos com que foi saudada a sua inauguração [Biblioteca escolar de Santa Clara, Ponta Delgada, 1909]. 

Quando, em Setembro de 1909, se deslocou a Lisboa, em viagem de ‘estudo e de recreio’, manteve contactos com Amália Luazes, Ana de Castro Osório, Albertina Paraíso, Olga Morais Sarmento e Virgínia Quaresma e visitou as principais escolas da capital, em companhia do professor Ulysses Machado.

Colaborou no jornal O Campeão Escolar, semanário consagrado aos interesses da instrução e do professorado, editado no Porto, entre 1904 e 1907, mas foi através do periódico Revista Pedagógica, órgão do professorado oficial açoreano e dedicado aos interesses da instrução e do professorado oficial, que se publicou em Ponta Delgada entre 1906 e 1916, do qual foi directora, proprietária e editora, que granjeou grande notoriedade junto da comunidade educativa, local e nacional. Embora o seu objectivo central fosse a difusão da instrução e a defesa dos interesses do professorado oficial, também acompanhou naquelas páginas a formação das organizações de mulheres e deu destaque às respectivas iniciativas. 

Foi o único periódico a chamar a atenção para os Estatutos da Associação de Propaganda Feminista, destacando os objectivos e o papel meritório das dirigentes Carolina Beatriz Ângelo e Ana de Castro Osório, e publicou artigos de opinião de algumas das principais líderes. 

A partir de 12 de Maio de 1915, Maria Evelina de Sousa surgiu também como secretária de redacção do periódico A Folha, fundado em 1902 e cuja directora, editora e proprietária era a amiga inseparável Alice Moderno [11/08/1868 - 20/02/1946].  

Por iniciativa de Evelina de Sousa realizou-se em Ponta Delgada uma conferência de propaganda ao método João de Deus e, mais tarde, ofereceu-se para dar explicações gratuitas a todos os professores que desejassem aprender o Método Legográfico-Luazes, método de leitura e de escrita da autoria da professora Amália Luazes, com quem o tinha aprendido. 

Ainda durante o tempo da Monarquia, defendeu na imprensa a proibição do ensino de matéria religiosa nos estabelecimentos escolares, congratulando-se com o decreto republicano que extingue, nas escolas primárias e normais, a doutrina cristã. 

Evelina de Sousa foi das poucas intelectuais a militar em três das organizações femininas da 1.ª República. 

Estreou-se na Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, tendo sido homenageada, juntamente com Alice Moderno, numa sessão realizada na sede em 15 de Agosto de 1912 e onde discursaram, para além das jornalistas, Ana Augusta de Castilho, Agostinho Fortes, Carneiro de Moura e Maria Veleda.

Participou na Associação de Propaganda Feminista, tendo sido publicada no seu órgão A Semeadora a carta dirigidas a Ana de Castro Osório onde expunha as indústrias femininas açoreanas [“Indústrias femininas - Carta a D. Ana de Castro Osório”, A Semeadora, nº 27, 15/09/1917, p. 3, cols. 1-2, nº 28, 15/10/1917, p. 3, col. 4 e p. 4, col. 1, nº 33, 09/07/1918, p. 4, cols. 1-3 e nº 35, 30/09/1918, p. 3, cols. 2-4].

Aderiu à Associação Feminina de Propaganda Democrática tendo, em Maio de 1916, participado na homenagem ao Presidente da República Bernardino Machado. 

Mereceu, enquanto propagandista da instrução e das reivindicações feministas, uma saudação no Primeiro Congresso Feminista e de Educação, organizado pelo Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas em 1924.

Sócia fundadora do Centro Democrático de Ponta Delgada e da Sociedade Micaelense Protectora dos Animais (1911).  

Muito conceituada nos Açores e respeitada no continente, o seu nome tornou-se sinónimo da defesa dos direitos das mulheres e precursora na protecção dos animais.  

Alice Moderno morreu a 20 de Fevereiro de 1946, apenas oito dias após o desaparecimento da sua grande amiga e companheira de sempre.

Quer o Dicionário de Educadores Portugueses, dirigido por António Nóvoa [Porto, ASA, 2003], quer o Dicionário no Feminino (séculos XIX-XX) [Lisboa, Livros Horizonte, 2005], inseriram pioneiros textos biográficos.

[João Esteves]

domingo, 9 de agosto de 2015

[1058.] ANA AUGUSTA DE CASTILHO [III]

[1866 - 1916]

Professora, escritora, proprietária, propagandista e defensora dos direitos das mulheres.

Natural de Angra do Heroísmo, era irmã de Maria Augusta Castilho Dias, tia do tenente Castilho Dias e viúva do professor de música João de Castilho.

Quando passou a residir em Lisboa, na Calçada do Poço dos Mouros, e sobretudo após a implantação da República, revelou-se acérrima defensora e propagandista do Livre-Pensamento, pertenceu à Associação do Registo Civil, foi uma prestigiada apologista da causa feminista e aderiu às suas organizações.

Militou na Liga Republicana das Mulheres Portuguesas. 

Colaborou com a Obra Maternal,  instituição destinada à protecção das crianças da rua abandonadas, sendo sua presidente em 1914 e 1915.

Participou no Grupo das Treze, agrupamento criado com a finalidade de combater a ignorância e todas as formas de superstição que afectavam a mulher portuguesa. 


Constituiu, juntamente com Ana de Castro Osório, Antónia Bermudes e Maria Benedita Mouzinho de Albuquerque Pinho, a Comissão Feminina "Pela Pátria", fundada com o objectivo de recolher donativos e agasalhos para os soldados portugueses, no caso de intervirem na guerra. 

Participou, juntamente com Maria Veleda, em campanhas de propaganda republicana e em defesa da intervenção de Portugal na 1ª Guerra, ao lado dos Aliados.


A actividade mais notória desenvolveu-se no âmbito da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, sobretudo no seu período áureo, onde presidiu a reuniões; contribuiu com donativos para subscrições; representou a agremiação em acontecimentos públicos e reuniões políticas; interveio enquanto oradora; e desempenhou cargos directivos entre 1912 e 1916, como os de Vice-Presidente da Direcção [1912] e Tesoureira [1913, 1914]. Em 1916, integrou a Mesa da Assembleia Geral. 

Intransigente defensora da República, fez parte da equipa de enfermeiras organizada pela Liga em Julho de 1912 e discursou no comício de Chaves, aquando da comemoração da vitória sobre as tropas monárquicas de Paiva Couceiro. 

Para além de contactos regulares com os responsáveis políticos republicanos, associou-se à homenagem às feministas açoreanas Alice Moderno e Maria Evelina de Sousa [15/8/1912]; participou na delegação da Liga, convidada pela Comissão Administrativa dos Bens das Extintas Congregações, para uma reunião no Ministério da Justiça [1912]; foi indigitada para o Conselho Nacional que deveria participar, em nome das portuguesas, no Congresso Internacional de 1913 e para representar a Liga no XVII Congresso Internacional do Livre Pensamento; colaborou, em 1913, na campanha a favor da aprovação, pelo Parlamento, da anulação do direito de fiança aos violadores de menores; e esteve envolvida, enquanto fundadora e docente, no projecto de criação da escola Solidariedade Feminina [1914], cuja finalidade era ministrar aulas diurnas e nocturnas ao sexo feminino e  criar um curso nocturno gratuito de instrução primária destinado a todas as mulheres e raparigas com mais de doze anos. Por falta de número suficiente de inscrições, apesar de intensa propaganda, acabou por não ser implementada.

A dedicação à Obra Maternal não foi menos intensa entre 1912 e 1915, empenhando-se quer nos Corpos Gerentes, onde foi a Presidente nos dois últimos anos, quer nas iniciativas desenvolvidas para sustentar o projecto, organizando e representando nos saraus anuais em seu benefício [26/5/1912; 22/6/1913]. Angariou adesões e deveu-se às suas persistentes diligências o facto da Obra não ter sido dissolvida em finais de 1914. 

A militância estendeu-se à Associação de Propaganda Feminista: eleita 2.ª Secretária da Assembleia Geral (1916), desempenhou ainda o cargo de Tesoureira da Empresa de Propaganda Feminista e defesa dos direitos da mulher, responsável pela edição do jornal A Semeadora

Iniciada na Maçonaria, tal como muitas outras activistas, pertenceu à Loja Carolina Ângelo do Grande Oriente Lusitano Unido, com o nome simbólico de Brites de Almeida. 

Colaborou em A Madrugada, com artigos de intervenção política e educativa.

Integrou a redacção do jornal A Semeadora, assinando textos nos primeiros dois números, e foi uma das accionistas da Empresa de Propaganda Feminista e Defesa dos Direitos da Mulher, responsável pela edição daquele mensário, desempenhando o cargo de Tesoureira da sua comissão dirigente e administrativa.

Publicou, na Casa Editora Para as Crianças, o livrinho A Mulatinha.
  
Considerada pelas companheiras como uma das mais prestigiadas defensoras dos direitos das mulheres, participou e discursou em múltiplas actividades relacionadas com a causa que tinha abraçado, acreditando na libertação feminina através do trabalho e da independência económica da mulher. 

Faleceu em Dezembro de 1916, em Lisboa, tendo várias agremiações estado representadas: LRMP, através de Angélica Porto; APF; Grémios Fiat Lux, Madrugada, José Estevão, Montanha, Luz e Verdade, Marquês de Pombal e Carolina Ângelo; Grupo Obreiro da República; Comissão Paroquial Republicana de Arroios; Cruz Vermelha Portuguesa e Brasileira. 

Discursaram, junto da campa, Ana de Castro Osório, Antónia Bermudes e Borges Grainha. 

O n.º 18 do jornal A Semeadora foi, parcialmente, consagrado ao seu falecimento; a Capital, de Lisboa, publicou um artigo evocativo da sua obra pela emancipação feminina, transcrito posteriormente pelo órgão da APF; A Folha, de Ponta Delgada, de que era directora Alice Moderno e secretária Maria Evelina de Sousa, dedicou-lhe a primeira página do n.º 670; e a revista Redencion, de Valência (Espanha), referiu-se ao desaparecimento de Ana Castilho, o qual também foi lamentado por Ana Carbia Bernal.

O desaparecimento, bem como o seu exemplo, tiveram, inclusivamente, repercussões na imprensa feminina espanhola.

Quer o Dicionário de Educadores Portugueses, dirigido por António Nóvoa [Porto, ASA, 2003], quer o Dicionário no Feminino (séculos XIX-XX) [Lisboa, Livros Horizonte, 2005], inseriram pioneiros textos biográficos.

[João Esteves]

[1057.] 70 ANOS SOBRE HIROXIMA E NAGASÁQUI || CPPC [I]

* 6 - 9 DE AGOSTO DE 1945 *

[Cartaz do Conselho Português para a Paz e Cooperação]

sábado, 8 de agosto de 2015

[1056.] SUSANA MENDONÇA DOS SANTOS [I]

[n. 29/03/1909]

Costureira.

Filha de Elvira Mendonça e de António Luiz dos Santos, Susana Mendonça dos Santos nasceu em Lisboa a 29 de Março de 1909.

Tal como a mãe e o irmão Manuel dos Santos [1914? - 25/10/1947],  operário comunista conhecido pelo “pequeno Dimitrov” condenado nos anos 30 a 22 anos de prisão e fugido da Penitenciária de Coimbra em Setembro de 1944, com a saúde muito debilitada, morrendo na clandestinidade, manteve intensa atividade política nas décadas de 30 e de 40, conhecendo também ela a prisão por mais de uma vez.

Detida em 21 de Novembro de 1936 pela Polícia de Vigilância e Defesa do Estado/Secção Política e Social, com Luísa Rodrigues [07/03/1903 - 01/12/1960], de quem era colega de fábrica, esta última acusada “de fazer propaganda subversiva e de ter distribuído panfletos clandestinos nas oficinas onde trabalhava.

Transferida para o regime de incomunicabilidade em 5 de Dezembro de 1936, passou para a 1.ª Esquadra da PSP em 14 de Dezembro e foi enviada para a Cadeia das Mónicas em 19 de Dezembro, sendo restituída à liberdade em 12 de Abril de 1937 [TT, RGP 5323; Proc. 1757/936].

Tornou a ser presa a 1 de Agosto de 1942, foi transferida para a Inspeção de Coimbra no dia 5, regressou a Lisboa em 28 do mesmo mês, recolhendo à 1.ª Esquadra, e ingressou no Forte de Caxias em 15 de Setembro.

Julgada pelo Tribunal Militar Especial em 27 de Outubro de 1943, foi condenada a 1 ano de prisão correcional, dada por extinta, e saiu em liberdade em 22 de Novembro de 1943 [Proc. 280/942, enviado ao TME em 23/11/1942].

O jornal Avante! da primeira quinzena de Março de 1943, a propósito de novo julgamento de Manuel dos Santos, informava que para o pressionarem a fazer declarações o regime fascista tinha condenado “a sua mãe «como jovem comunista» (?) a dois anos de prisão [...] e a sua irmã Susana no Tribunal Militar Especial a muitos meses de prisão” [Avante!, n.º 28], preparando-se para “sujeitá-lo a novo julgamento em Tribunal Militar Especial ao lado de sua irmã bastante doente” [ibidem]. 

O mesmo periódico clandestino denunciou, entre 1935 e 1947, a repressão policial que afectava quotidianamente a família daquele preso comunista, acusando de “prenderem, condenarem e assassinarem sua mãe”, ao detê-la em Fevereiro e Março de 1936, “como elemento de ligação entre ele e os seus camaradas” [“Salvemos Manuel dos Santos”, Avante!, Série II, n.º 20, Agosto de 1936, p. 2] e cuja condenação a dois anos de prisão “arruinaram o seu organismo depauperado pela miséria” [“Nos Tribunais Fascistas – Novo julgamento de Manuel dos Santos”, Avante!, Série VI, n.º 28, 1.ª Quinzena de Março de 1943, p. 2, col. 2].

Sendo Susana Mendonça dos Santos colega de fábrica e correlegionária de Luísa Rodrigues, não terá sido por acaso que o irmão Manuel dos Santos foi viver clandestinamente com esta quando fugiu da prisão, já muito doente, em 1944, falecendo três anos depois. 

Feminae - Dicionário Contemporâneo [Lisboa, CIG, 2013] incluiu uma nota biográfica de Susana Mendonça dos Santos, sendo agora corrigidos e atualizados alguns dos dados ali inseridos.

[João Esteves]

[1055.] BARRIL [III]






quinta-feira, 6 de agosto de 2015

[1054.] MARIA ARMANDA GONÇALVES TELES [I]

[1931-2009]

Filha de Américo Simões Teles [1893-1989], funcionário dos correios e fundador do Museu Marítimo e Regional de Ílhavo em 8 de Agosto de 1937, e de Leontina Berta Pontes Gonçalves [f. 1979], também funcionária dos correios. 

Maria Armanda Gonçalves Teles nasceu em 25 de Novembro de 1931 na Senhora da Hora, Matosinhos, mas foi registada em Campanhã, Porto, cidade onde viveu, exerceu a actividade profissional, desenvolveu a militância política e faleceu em 4 de Junho de 2009, com 77 anos de idade. 

Casou, a 8 de Março de 1952, com Hernâni Alfredo Ramalho e Silva [10/01/1927-1999] que conhecera no MUD Juvenil. 

Iniciou a militância antifascista muito nova, ainda na década de 40: em 1947, com 16 anos, incorporou-se no funeral de Abel Salazar; dois anos depois, em 1949, participou na campanha eleitoral do general Norton de Matos, nomeadamente no comício na Fonte da Moura, em Aldoar; pertenceu ao MUD Juvenil; integrou com a irmã, Maria Ondina Gonçalves Teles, a Delegação do Porto da Associação Feminina Portuguesa para a Paz, onde era a sócia n.º 355, com residência na Rua Formosa, 165, 3º, tendo-se envolvido, em 1950, nas conferências para a Paz de Teixeira de Pascoaes, no âmbito das comemorações do XV aniversário da AFPP no Porto; em 1951, esteve no comício de apoio à candidatura presidencial de Ruy Luís Gomes; interveio na campanha de Humberto Delgado, em 1958; associou-se, em 1969, à homenagem prestada a Mário Sacramento; participou no III Congresso da Oposição Democrática, realizado em Aveiro; colaborou, em 1973, na homenagem ao Dr. Arnaldo Mesquita, advogado e defensor dos presos políticos e, quatro dias antes do 25 de Abril de 1974, no jantar de homenagem a Óscar Lopes. 

Apoiou as sucessivas comemorações do 1º de Maio, 5 de Outubro e 31 de Janeiro e militou no Partido Comunista, tal como o marido, várias vezes preso (1950, 1953 e 1955) e torturado. 

O marido também foi ativista da AFPP, sendo o sócio (auxiliar) nº 248. 

No âmbito da militância comunista, fez entrega de jornais e de outra propaganda, acompanhou o marido em muitas das suas atividades clandestinas e contribuiu para o disfarce dos encontros simulando piqueniques ou convívios entre amigos e filhos, nomeadamente em praias e pinhais. 

Em 1950, ainda menor e quando da primeira prisão de Hernâni Silva, foi sujeita a interrogatórios intimidatórios na Subdirectoria do Porto, na Rua do Heroísmo, acusada de distribuir propaganda subversiva. 

Durante as prisões de Hernâni Silva, Maria Armanda esteve sempre presente e apoiou-o em tudo que lhe era possível: visitas, correspondência, encomendas, transmissão de mensagens e denunciando os maus-tratos na prisão, não havendo, durante os cinco anos de reclusão, “um dia em que não se correspondesse com o marido, mesmo que as cartas fossem censuradas ou não chegassem ao destinatário”. 

Nunca deixou de ser vigiada, seguida e intimidada pela PIDE, sofrendo a sua habitação várias visitas repentinas da polícia política e, “posteriormente, numa fase de actividade política mais discreta, Hernâni, com a colaboração de Maria Armanda, cumpriu tarefas de apoio, ligação e alojamento a funcionários clandestinos do seu partido”. 

Entretanto, Maria Armanda Gonçalves Teles concluiu os cursos de línguas dos Institutos de francês, inglês e italiano, frequentou, em 1954, os cursos de Radioterapia e de Técnica de Radiologia, que fez em simultâneo no Hospital Geral de Santo António, no Porto e, em 1956, concorreu a uma vaga e ficou colocada, primeiro no serviço de Radioterapia e, mais tarde, no serviço de Radiologia, tendo integrado a sua gestão a seguir ao 25 de Abril de 1974. 

Após esta data, manteve a mesma intervenção política e cívica: integrou o Sector Intelectual do Partido Comunista; fez parte do Movimento Democrático de Mulheres; integrou o núcleo do Porto da União dos Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP); interveio na comissão promotora da homenagem a Irene Castro em 11 de Outubro de 1992, assim como na comissão que promoveu a 8 de Março, durante dois anos, a homenagem de saudade Irene Castro, Amélia Cal Brandão e Herculana de Carvalho, todas sócias da AFPP da Delegação do Porto. 

Ajudou a criar e organizar com Maria Alcina Gomes, casada com o advogado Arnaldo Mesquita, companheiro de prisão do marido, o Sindicato dos Técnicos Paramédicos que abrangia todos os técnicos de Saúde, tendo sido a sócia n.º 5, delegada sindical e pertencido à Direção e Conselho Fiscal. 

O marido faleceu em 1999 e as duas irmãs, Armanda e Ondina Gonçalves Teles, faleceram ambas em 2009. Prima de Maria Berta Gomes, com quem participou em várias iniciativas do MUD Juvenil e que casaria com Júlio Pomar. O casal teve quatro filhos [Sílvia, Paulo, Sónia e Cláudia], tendo a primeira morrido com um ano de idade. 

A filha Sónia escreveu detalhada entrada biográfica da mãe para Feminae. Dicionário Contemporâneo [Lisboa, CIG, 2013]. 

[João Esteves]