[Cipriano Dourado]

[Cipriano Dourado]
[Plantadora de Arroz, 1954] [Cipriano Dourado (1921-1981)]

quinta-feira, 30 de julho de 2015

[1045.] MARIA FERNANDA CORTE REAL GRAÇA E SILVA [III]


A reconstrução de biografias de ativistas é um ofício inacabável e quando se trata de nomes silenciados pelo tempo a tarefa revela-se difícil e morosa.

Retoma-se novamente o esboço biográfico da "abrantina" Maria Fernanda Corte Real Graça e Silva, nome que o Blogue Cidadãos Por Abrantes deu o devido relevo, subentendendo-se que muito mais haveria a dizer. Tornou-se agora possível colmatar algumas lacunas a partir do livro Mulheres Contra a Ditadura, de Cecília Honório [Bertrand, 2014]. Muito continua por dizer, sobretudo na parte referente ao período posterior ao 25 de Abril de 1974.

Filha de Emília de Mascarenhas Corte Real Graça e Silva, com raízes numa família abastada, monárquica e conservadora do Algarve, e do republicano Henrique Augusto da Silva, advogado e conservador do Registo Civil de Beja, nasceu em Setúbal a 1 de Outubro de 1925. 

Frequentou o Colégio do Sagrado Coração de Jesus entre a 1ª classe e o 3º ano, quando passou para um liceu estatal, e cursou Direito na Universidade de Lisboa. 

Começou cedo a sua militância política, a que não terá sido alheia o republicanismo e antisalazarismo do pai, bem como a perseguição a este movida pelas autoridades do Estado Novo por ter assinado as listas do Movimento de Unidade Democrática e o convívio com oposicionistas comunistas. 

Na Faculdade, fez parte do MUNAF, a convite de um colega de Direito; em 1945, com 19 anos, associou-se ao numeroso grupo de estudantes que aderiu ao Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, "com o cartão n.º 416" [Cecília Honório]; no ano seguinte, integrou a Comissão Central do MUD Juvenil com, entre outros, António Abreu, Francisco Salgado Zenha, Júlio Pomar, Mário Sacramento, Mário Soares, Octávio Pato e Rui Grácio, sendo a única mulher; e conheceu o futuro marido, Orlando Rodrigues Bento Pereira, estudante do 2.º ano e dirigente estudantil ligado ao Partido Comunista. 

Data de então a sua adesão a este, fazendo-se a intervenção no âmbito daquela organização juvenil, onde foi a única mulher a ter lugar na primeira direcção composta por dez homens, tendo-se evidenciado enquanto "organizadora por excelência" e como oradora, discursando em diversas sessões do MUD e do MUD Juvenil. 

Vigiada desde 1946 pela PIDE, tanto politicamente como na vida privada, foi presa enquanto dirigente do MUD Juvenil por duas vezes: a primeira ocorreu em Évora, juntamente com Júlio Pomar, a 27 de Abril de 1947, sendo libertada quatro meses depois, não podendo então concluir o curso. Por sua vez, Orlando Pereira seria preso dois dias depois, a 29 de Abril, e libertado a 14 de Agosto de 1947. 

A segunda prisão deu-se quando já era funcionária do Partido Comunista, sendo detida em Beja em 24 de Abril de 1948: recolheu mais uma vez ao Reduto Norte do Forte de Caxias e saiu em liberdade condicional passados três meses, em 29 de Julho, por a sua saúde inspirar cuidados. O seu advogado era Manuel João da Palma Carlos.

Em 1949, apoiou ativamente a campanha presidencial de Norton de Matos e foi julgada inicialmente pelo Tribunal Plenário de Lisboa em 15 de Março, sendo condenada a 40 dias de prisão correccional e suspensão de todos os direitos políticos por três anos. No entanto, a sentença seria agravada para 100 dias de prisão correccional, por acórdão do Supremo Tribunal de Justiça de 19 de Julho de 1950. 

Casou neste ano e a partir de 1951 a militância foi-se desvanecendo em resultado de passar a residir com a família em Abrantes, para onde o marido fora tomar conta de um escritório de um advogado amigo.

No entanto, em 1958 interveio na candidatura de Arlindo Vicente, tendo discursado em 18 de Fevereiro numa sessão em Alpiarça; em 1961, o marido foi candidato às eleições por Santarém pela Oposição Democrática; e Maria Fernanda voltou a participar ativamente na campanha eleitoral de 1969, sendo oradora no comício realizado pela CDE em Santarém a 4 de Outubro de 1969. Neste mesmo ano, "declarava o seu apoio à luta dos estudantes" [Cecília Honório] de Coimbra.

A vigilância da PIDE/DGS manteve-se, pelo menos, até 1972, sendo que, segundo nota de Cecília Honório, "em 20 de Abril de 1972 regista-se o envio de duas fotos ao Posto de Santarém e identifica-se o seu filho, Orlando Rodolfo" [CH, Mulheres Contra a Ditadura]. 

Na sequência da revolução de Abril de 1974 e da nomeação do marido como notário, partiu para Lisboa. Só então concluiu o curso, tantas vezes adiado ora por questões políticas, ora pelo nascimento dos filhos. 

Na capital, retomou as ligações partidárias, leccionou no Liceu Passos Manuel a disciplina de Introdução à Política e exerceu, por escasso tempo, a advocacia num escritório particular. 

O quarto volume de Presos Políticos no Regime Fascista insere cópia da sua “Biografia Prisional”, incluindo as três habituais fotografias enquanto presa política. 

Vanda Gorjão entrevistou-a para o seu trabalho Mulheres em tempos sombrios. Oposição feminina ao Estado Novo, citando-a com frequência. Trata-se, aliás, de uma obra imprescindível para compreender o percurso pessoal, político e profissional de Maria Fernanda Silva, bem como das mulheres oposicionistas da mesma geração. 

Mais recentemente, em 2014, Cecília Honório dedicou-lhe um capítulo na obra Mulheres Contra a Ditadura, intitulado "Maria Fernanda Corte Real Graça e Silva e a primeira Comissão Central do MUDJ".

[João Esteves]

[1044.] RIA FORMOSA [IV]






quarta-feira, 29 de julho de 2015

[1043.] JOÃO GOMES JÚNIOR [III]

 [1872-1957/8]
 
[João Gomes Júnior, já octogenário no quintal da sua residência em Coimbra]

Filho de Guilhermina dos Prazeres e de João Gomes, nasceu em Coimbra em 9 de Novembro de 1872.

Industrial e serralheiro de reconhecida arte, foi activista do Partido Republicano de Coimbra - Comissão Paroquial da Freguesia de Santa Cruz, onde era em 1910 o respectivo Secretário. 

Aquando do triunfo da Ditadura Militar, enfileirou a oposição ativa republicana e sofreu duras consequências políticas e económicas.

Imprimiu e distribuiu clandestinamente nos anos 30, no armazém que detinha na Rua da Sofia, números do jornal A Verdade, afecto a Afonso Costa, e na sequência dessas actividades andou fugido à Polícia Política, bem como vários filhos, foi preso, condenado e os bens apreendidos.

Depois de ter conseguido andar fugido à polícia política durante muitos meses, escondendo-se onde podia na zona da Figueira da Foz, Lares e Coimbra, foi finalmente preso em Coimbra em 29 de Agosto de 1936, quando tinha 63 anos de idade.

Transferido para o Aljube em 26 de Setembro de 1936, foi deportado já sexagenário para a Fortaleza de Angra do Heroísmo em 17 de Outubro do mesmo ano.

Regressou em 8 de Novembro de 1937, tendo sido então restituído à liberdade [TT, RGP, Livro 22, R. 4058; PIDE/DGS, SC, PC 1184/36 NT 4448].


Pai de José Gomes dos Santos [19/03/1899-03/04/1991], antifascista muito conhecido em Coimbra que também passou pelo Aljube, Peniche e Fortaleza de Angra do Heroísmo, e de Mário Gomes dos Santos, preso no Aljube do Porto em 1934 e que não manteve posterior militância oposicionista; e avô de Lucinda Mariana Gomes Franco [01/11/1923-10/01/2012].

[1042.] RIA FORMOSA [III]

  

terça-feira, 28 de julho de 2015

[1041.] NINA PERDIGÃO [II]

* TOMÁZIA JOSEFINA HENRIQUES PERDIGÃO *

[1902-1988]
[in Manuela Perdigão, blogue da Família Perdigão]

Mais conhecida por Nina Perdigão

Filha de Tomázia Alves de Azevedo Henriques [f. 24/08/1936], proprietária, e de Joaquim dos Santos Henriques, nasceu a 2 de Maio de 1902 na Freguesia de Cedofeita, Porto, cidade onde faleceu em 1988. 

Teve quatros irmãos, todos rapazes: Luís, Carlos, Joaquim e António Azevedo Santos Henriques. 

Casou com Licínio Pinheiro Perdigão [1905-1934], nascido em Manaus, Brasil, arquiteto que cursou a Faculdade de Belas Artes do Porto entre 23/09/1922 e 03/10/1929 e que faleceu muito novo em início de carreira, não voltando a contrair matrimónio. 

Viúva muito nova e mãe de dois filhos pequenos (Rui e Gil Perdigão), ficou economicamente dependente dos pais que estavam ligados à indústria têxtil portuense. A sua militância política iniciou-se na década de 30, no âmbito do Socorro Vermelho Internacional, vendendo o boletim Solidariedade e selos para angariar fundos para os presos políticos, militantes clandestinos e vítimas da Guerra Civil de Espanha. 

Com 34 anos e recém viúva, foi presa na residência da Avenida da Boa Vista, 341, Porto, em 22 de Outubro de 1936, acusada de fazer parte do Socorro Vermelho Internacional do Norte [ANTT-PIDE/DGS Proc. 122/37], e libertada em 30 de Maio de 1937. 

Novamente detida em 9 de Agosto deste ano a fim de ser submetida a julgamento, recolheu ao Aljube do Porto e saiu em liberdade em 26 de Agosto depois de ter sido condenada pelo Tribunal Militar Especial à multa de 2.400$00, que se substituía, quando não paga, por quatro meses de prisão correcional [Processo nº 39/937 do Tribunal Militar Especial de Lisboa, fl. 25].

A mulher do Presidente Óscar Carmona, Maria do Carmo Ferreira da Silva [1888-1956], intercedeu por ela junto de Salazar, tendo este afirmado: “Será um bom exemplo para as mulheres portuguesas”! [Rui Perdigão, O PCP visto por fora e por dentro, p. 41]. 

Cumpriu a sentença no Aljube do Porto, numa cela juntamente com Alice Pereira Gomes [1910-1983], irmã de Soeiro Pereira Gomes. 

Em 1944, aderiu ao Partido Comunista Português, do qual se afastou após os acontecimentos da Checoslováquia, tornando-se o seu principal sustentáculo económico durante a clandestinidade, envolvendo, segundo o filho Rui Perdigão, 150.000 contos, doados principalmente durante a década de 50. 

A sua casa funcionou também como ponto de apoio do Partido Comunista, sendo apenas do conhecimento do Secretariado, tendo passado por lá Joaquim Pires Jorge, Cândida Ventura e, no verão de 1949, Soeiro Pereira Gomes, este na fase terminal da doença que o vitimou. Foi aí que se inspirou para os últimos escritos, escondidos até ser possível recuperá-los mais tarde: “Foi minha mãe, Nina Perdigão, que com uma enorme paciência reconstruiu os textos, tendo sido em muitos sítios obrigada a dar uma versão sua de certas frases, totalmente desaparecidas. Foi este o texto que serviu à primeira edição dos Contos Vermelhos aparecida clandestinamente” [ibidem, p. 41]. 

As doações de Nina Perdigão foram fundamentais para a manutenção das tipografias clandestinas e com o filho Rui e a esposa deste, Fernanda Maria Baía da Silva, formou e manteve na clandestinidade um “aparelho” de apoio logístico, considerado pela Direção do PCP como muito importante, já que envolvia o serviço clandestino de fronteiras que permitia a saída do país de militantes na clandestinidade. 

Tomázia Perdigão foi, segundo o Diário de Maria Luísa Ribeiro de Lemos, uma das fundadoras da Delegação do Porto da Associação Feminina Portuguesa para a Paz, sendo a sócia nº 273 de acordo com o caderno de Irene [Fernandes Morais] Castro, a sua última presidente, com residência na Rua do Breyner, 123, 2º [ver Lúcia Serralheiro, Mulheres em Grupo Contra a Corrente] . 

O investigador José Pacheco Pereira considera que foram duas as famílias do Porto que mais ajudaram o Partido Comunista na clandestinidade, a saber, a família de Guilherme da Costa Carvalho, cujos pais e irmã também pertenciam à AFPP, e a de Nina Perdigão.

Lúcia Serralheiro incluiu uma biografia de Tomázia Josefina Henriques Perdigão/Nina Perdigão no Dicionário no Feminino (séculos XIX-XX) [Livros  Horizonte, 2005].

[João Esteves]

[1040.] RIA FORMOSA [II]





segunda-feira, 27 de julho de 2015

[1039.] NATÉRCIA IZOLINA AZEVEDO ALVES CARAMALHO || NATÉRCIA BABO [II]

[21/09/1914-2004[?)]

Advogada. 

Filha de Albertina Vieira de Azevedo e de Isolino Alves Caramalho [Póvoa de Varzim, 1889 — Lisboa, 1943], nasceu a 21 de Setembro de 1914 em Santa Leocádia de Briteiros, Guimarães. 

Frequentou, na segunda metade da década de 30, a Faculdade de Direito de Lisboa, então no Campo Santana, onde foi colega, entre outros de Álvaro Cunhal [1913-2005] e Alexandre Babo [30/09/1916-02/11/2007], com quem casou.

Após a licenciatura, conseguiu, no início dos anos 40, colocação num Bairro administrativo do Porto, cidade onde o casal passou a viver.

Integrou o grupo fundador da Delegação do Porto da Associação Feminina Portuguesa para a Paz, onde era a sócia nº 182: proferiu conferências,  marcou presença no almoço de homenagem à escritora Maria Lamas aquando da sua deslocação àquela cidade e foi por seu intermédio que João Villaret aceitou realizar um recital  a favor da Paz promovido pela agremiação no Teatro S. João, o qual foi apresentado por si. 

Natércia Babo esteve ainda associada a outros episódios da luta antifascista. 

Pertenceu à Comissão Distrital Feminina do Porto do Movimento de Unidade Democrática (MUD) e assinou a Circular nº 1, juntamente com Amélia Cal Brandão, Beatriz Almeida Cal Brandão, Irene Cortesão, Irene de Castro, Maria Branca Lemos, Maria Elvira Cortesão e Maria Manuela David, todas sócias da AFPP. 

Em 1949, participou ativamente na campanha presidencial de Norton de Matos e discursou na sessão realizada em Viana de Castelo, no Teatro de Sá de Miranda, onde fez "uma intervenção bem estruturada e firme, condenando e atacando o regime sem tibiezas" [Alexandre Babo, Recordações de um caminheiro, 1993].

Foi na sequência dessa reunião de propaganda que foi presa um mês depois pela PIDE, em 4 de Março de 1949, por ter afrontado publicamente o comandante daquela polícia local por não se ter levantado para cantar o Hino Nacional.

Por intermédio do marido, escritor a advogado que passou a militar no Partido Comunista a partir de 1943 e de quem se divorciou na segunda metade da década de 50, Natércia Babo conviveu com o ativismo antifascista do Porto e, embora nunca tenha sido daquela organização, por influência de Joaquim Pires Jorge, dirigente que muitas vezes se abrigou na casa do casal, chegou a "tomar posição e praticar atos que muita gente do partido não seria capaz", responsabilizando-se por ir várias vezes a Coimbra de comboio buscar o jornal Avante! para ser redistribuído no Norte: "Arriscava comigo sem se opor e sabia perfeitamente que, sendo presa, nada lhe valia afirmar que não era filiada" [A. Babo].

Traduziu alguma literatura com Alexandre Babo, tendo o seu pai também sido tradutor de nomes como Gogol, Tolstoi, Maupassant e Sienkiewicz. 

Aparece referenciada no Caderno de Irene de Castro como Dr.ª Natércia Babo, com escritório na Rua Alexandre Braga, 40, 2º e residência na Rua do Bairro do Comércio, 91, R/C, Porto. É esta a morada que também aparece no Registo Geral de Presos da PIDE como sua residência [ANTT, RGP, Registo nº 19002].
 
[João Esteves || 29/09/2015]

[1038.] NATÉRCIA IZOLINA AZEVEDO ALVES CARAMALHO || NATÉRCIA BABO [I]

* NATÉRCIA CARAMALHO [BABO] *

- BIOGRAFIA PRISIONAL -
[Presos políticos no regime fascista V - 1949-1951, 1987]

[1037.] RIA FORMOSA [I]


 





domingo, 26 de julho de 2015

[1036.] AMÉLIA ALMEIDA BRANDÃO DE CAL OU AMÉLIA ALMEIDA CAL BRANDÃO [III]

* AMÉLIA CAL BRANDÃO *
[?-17/11/1974]

Amélia Almeida Brandão de Cal ou Amélia Almeida Cal Brandão, nome por que ficou conhecida devido à vulgarização da inversão dos dois apelidos, casou, em 1905, com Silo José Cal Muiños, imigrante galego natural de Redondela radicado no Porto e funcionário da empresa inglesa Casa Graham. 

Mãe de Carlos Cal Brandão [05/11/1906-31/01/1973], de Silo José Cal Brandão [n. 23/03/1908] e de Mário Cal Brandão [25/03/1910-21/10/1996], republicanos com militância ativa na oposição à ditadura surgida em 1926 e apoio a republicanos espanhóis. 

Em 1937, a casa do casal acolheu Isabel Gómez Costas, que fugira de Redondela com seis filhos depois do assassinato do marido, Telmo Bernárdez. Aí receberam abrigo, cuidados e alimentos, bem como bilhetes dum barco norueguês rumo a Bordéus [nondesaesquecemento.blogspot.com.es/2015/01/casas-refuxio-no-porto.html]. 

Sócia nº 305 da Delegação do Porto da Associação Feminina Portuguesa para a Paz, com residência na Rua do Almada, 18, 4º, estando inscrita como Amélia Brandão Cal. 

[in Lúcia Serralheiro, Mulheres em Luta Contra a Corrente, Edições Evolua, 2011]

Republicana e anticlerical, celebrava as datas de 31 de Janeiro e do 5 de Outubro, associou-se a iniciativas da oposição democrática, nomeadamente do MUD, sendo em sua casa que, por vezes, se reunia a sua comissão feminina, e festejou o fim da II Guerra. 

Apesar de ter só a 4ª Classe, foi autora de uma carta pública a Clyde Gomes Alflalo, assistente social apoiante da União Nacional, onde refutava a ideia de que as mulheres portuguesas deviam estar agradecidas a Salazar por Portugal não ter entrado no conflito mundial. Nesse documento, datado de 30 de Outubro de 1945 e com enorme divulgação no Porto, tendo ainda sido impressa pela Comissão Distrital de Braga do MUD, refere também as injustiças políticas praticadas pelo Governo e as prisões da PIDE. 

Posteriormente, denunciou junto das autoridades as condições desumanas suportadas pelos presos políticos e, no Tribunal da Boa Hora, foi uma das testemunhas de defesa de Guilherme da Costa Carvalho, filho de Herculana de Carvalho, sua amiga e correlegionária da AFPP do Porto. 

Sobreviveu ao fim da ditadura, contra a qual tanto lutara, falecendo cerca de seis meses após o 25 de Abril de 1974. 

Lúcia Serralheiro inscreveu a sua biografia no Dicionário no Feminino (séculos XIX-XX) [Lisboa, Livros Horizonte, 2005] e estudou-a no âmbito do livro Mulheres em Grupo Contra a Corrente [Associação Feminina Portuguesa para a Paz (1935-1952), Rio Tinto, Evolua Edições, 2011].

João Esteves

sexta-feira, 24 de julho de 2015

[1035.] BEATRIZ MONTEIRO MAGALHÃES ALMEIDA [I]

[27/10/1881-1956]

Filha de Arminda Monteiro Magalhães e de Miguel Fernandes Magalhães, Beatriz Monteiro Magalhães Almeida nasceu em Cedofeita, Porto, em 27 de Outubro de 1881.

Casou, em 1913, com Francisco Almeida Dias Pinheiro e no ano seguinte, em 2 de Março, nasceu a filha Beatriz Magalhães Almeida Pinheiro, conhecida por Beatriz Cal Brandão por ter casado com Mário Manuel Cal Brandão [1910-1996]. 

Quando nos anos quarenta se tornou a sócia nº 67 da Delegação do Porto da Associação Feminina Portuguesa para a Paz, com residência na Vila Margarida, Avenida de Gaia, 1001, Vila Nova de Gaia,  já tinha um trajeto politico oposicionista relevante.  

Viúva, com 56 anos, foi presa com a irmã mais velha [Carolina Magalhães Costa] e a única filha [Beatriz Magalhães Almeida Pinheiro] em 18 de Dezembro de 1937, às duas horas da manhã, na sua residência na Rua do Moreira, 283, Porto, por notícias enviadas a um familiar da província sobre a Guerra Civil de Espanha. Julgada a 28 de Junho de 1938 pelo TME, foi condenada na pesada multa de 8.400$00 e libertada no dia seguinte, tal como a irmã, enquanto a filha já tinha saído em liberdade em 31 de Dezembro de 1937. 

Lúcia Serralheiro, no seu livro Mulheres em Grupo Contra a Corrente [Associação Feminina Portuguesa para a Paz (1935-1952), Rio Tinto, Evolua Edições, 2011], refere que testemunhos orais recolhidos por si indicaram que Beatriz Almeida redigia quadras contra a política de Salazar e distribuía-as pelas caixas de correio das ruas do Porto, assim como escrevia postais de correio com endereços fictícios contendo notícias sobre a Guerra Civil de Espanha para que os carteiros, ao interrogarem-se sobre os destinatários, os lessem e comentassem. 

[in Lúcia Serralheiro, Mulheres em Grupo Contra a Corrente, Evolua Edições, 2011]

Segundo a filha, entrevistada por Lúcia Serralheiro, era uma mulher muito culta, autodidata e de fortes convicções, preocupando-se com as camadas mais desfavorecidas. 

Testemunhou, no Tribunal da Boa Hora, em Lisboa, a favor de Guilherme da Costa Carvalho [1921-1973], filho da amiga e correlegionária Herculana de Carvalho [23/12/1900-16/05/1952].

Beatriz Magalhães Almeida publicou, na primeira metade da década de 40, vários livros com o pseudónimo Zita Maga. Esteve representada com cinco obras (A Mãe, A Aninhas, A Rosinha, A capucha serrana e O último modelo) na Exposição de Livros Escritos por Mulheres organizada, em Janeiro de 1947, pelo Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas. No Catálogo, refere-se que “tem desenvolvido grande atividade literária de há vinte anos para cá, embora não tenha publicado todos os seus trabalhos”. 

Lúcia Serralheiro inseriu dados biográficos no Dicionário no Feminino (séculos XIX-XX), editado em 2005 pelos Livros Horizonte, tendo aí referido, citando a filha, que «Viveu sempre ansiosa do conhecimento exacto e sobretudo da génese e da finalidade de um partido comunista que se interessasse sobre o desenvolvimento das camadas mais infelizes, mais desprotegidas da sociedade. Era uma mulher muito inteligente, muito culta, uma autodidacta, que se fez à sua custa, e que educou a filha “sempre no horizonte de liberdade, solidariedade, de abertura e de aceitação ao que os outros pensam, contanto que eles tenham o limite de convicções, mas não de agressão às ideias dos outros”».

João Esteves

terça-feira, 21 de julho de 2015

[1034.] ELVIRA MENDONÇA [II]

[n. 01/08/1883]

Elvira Mendonça é um dos muitos nomes esquecidos ou pouco conhecidos. No entanto, José Dias Coelho, no livro A Resistência em Portugal, inscreveu o seu nome na lista daqueles que “morreram às mãos da PIDE ou em consequência das torturas” [p. 77].

Elvira Mendonça era mãe de Manuel dos Santos [1914?-25/10/1947], "o pequeno Dimitrov", e de Susana Mendonça dos Santos [n. 29/03/1909], dois militantes comunistas que também conheceram as prisões nas décadas de 30 e 40 do século XX, e era correlegionária de Luísa Rodrigues, outro nome feminino emblemático da resistência.

domingo, 19 de julho de 2015

[1033.] JOSÉ MANUEL TENGARRINHA [IV]

* ALGUMA COISA É DITA, MUITO MAIS FICOU POR DIZER *



[Guerra e Paz, 2015]

A propósito deste pequeno livrinho, que rapidamente se devora iniciada a leitura, vale a pena referir que José Tengarrinha entrou duas vezes na Universidade pelas mãos dos estudantes. 

A primeira, mencionada neste diálogo com José Jorge Letria, em 1974, na sequência do 25 de Abril. A segunda, exatamente dez anos depois, em 1984, aquando da tentativa frustrada do seu saneamento meticulosamente planeado por quem julgava que se tratava do elo mais fraco de um conjunto de Professores que urgia afastar do corpo docente de História.

Então, perante professores e assistentes coniventes ou receosos de reagir junto dos novos poderes emergentes, os alunos e ex-alunos foram inexcedíveis e souberam lutar pela permanência do professor Tengarrinha na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa: movimentaram-se, denunciaram o caso, intervieram junto dos órgãos diretivos, recorreram à comunicação social (jornais, rádio e televisão) e fizeram greve(s). Não se calaram, tendo alguns dos protagonistas desses dias sido seriamente prejudicados enquanto estudantes e nas carreiras académicas. 

[Diário de Lisboa, 3 de Dezembro de 1984]


Um dia valerá a pena voltar a este "episódio" que visou, também, atingir António Borges Coelho e Hernâni Resende. 
  
[Diário Popular, 3 de Dezembro de 1984]

[1032.] CATARINA RAMOS MACHADO [RAFAEL] [IV]


[1917-15/04/2010]

Quase 90 anos decorridos sobre o triunfo do Golpe  Militar de 28 de Maio de 1926 e 41 sobre o 25 de Abril de 1974, a Historiografia e os estudos académicos continuam a deixar na sombra muitos dos, apesar de tudo, poucos Homens e Mulheres que quiseram e souberam combater e resistir a uma ditadura de 48 anos.

E porque muitos desses Homens e Mulheres nunca procuraram o protagonismo, não tiveram necessidade de se evidenciar publicamente ou vangloriar-se, o silêncio torna-se ainda mais pesado e duradouro.

Catarina Ramos Machado é um daqueles nomes pouco estudados e conhecidos, até porque nunca foi presa pela polícia política, embora tenha mantido, entre 1947 e 1973, ininterrupta atividade nas tipografias clandestinas do Partido Comunista.

Mesmo antes de casar com Joaquim Serrão Rafael [14/12/1907-22/07/1974] e de enveredar pela clandestinidade, Catarina Machado já sabia o que era a luta política e a repressão policial. 

Nascida em Vale de Vargo, concelho de Serpa, era filha de Bernardino Batista Machado [n. 16/08/1889, filho de Bernardino José Machado e de Catarina de Jesus Batista] e de Mariana Ramos Godinho.

O pai, comerciante, era militante do Partido Comunista desde a 1.ª República e por sua casa, junto à fronteira com Espanha, passaram muitos quadros clandestinos em trânsito, incluindo Bento Gonçalves.

Também o irmão de Catarina Machado, Fiel Godinho Machado [n. 1912], teve militância e pai e filho foram presos em Janeiro de 1937 por propaganda comunista. Fiel Machado foi libertado em 6 de Maio e o pai, violentamente agredido e enviado para o Aljube, saiu a 5 de Junho de 1937, tendo sido encaminhado para a enfermaria nos dias anteriores à sua libertação. 

Catarina Ramos Machado aderiu ao Partido Comunista no início da década de 40 e com Joaquim Rafael, camponês nascido em Tremês, no distrito de Santarém, com quem casou, trabalhou 26 anos consecutivos em tipografias clandestinas de vários pontos do país sem que o casal tenha sido preso pela PIDE. 

Devido ao estado de saúde do marido, vítima de doença provocada pelo chumbo das tipografias, tiveram de deixar, contra vontade, a clandestinidade em 1973, tendo Joaquim Rafael morrido três meses após o 25 de Abril. 

terça-feira, 14 de julho de 2015

[1028.] AFONSO COSTA || JORGE PAIS DE SOUSA

QUANDO NÃO SE DEVE ESCREVER PRECIPITADAMENTE SOBRE O QUE SE DESCONHECE [MESMO TRATANDO-SE DE OPÇÕES HISTORIOGRÁFICAS] OU A URGÊNCIA DE LER O TEXTO "AFONSO COSTA E O REVISIONISMO EM HISTÓRIA" POR JORGE PAIS DE SOUSA

COM A DEVIDA VÉNIA, AQUI NO ALMANAQUE REPUBLICANO


[1027.] MUTILAÇÃO GENITAL FEMININA

* ESTUDO "MUTILAÇÃO GENITAL FEMININA" *
15 DE JULHO || 10 HORAS || EDIFÍCIO SEDE DA POLÍCIA JUDICIÁRIA 



segunda-feira, 13 de julho de 2015

[1026.] DIA DA MULHER || CDE - ELEIÇÕES DE 1973

* CDE || CAMPANHA ELEITORAL OUTUBRO DE 1973*

- DIA 17 DE OUTUBRO || DIA DEDICADO À MULHER -

[Diário de Lisboa, 17 de Outubro de 1973]

[1025.] CATARINA RAMOS MACHADO [RAFAEL] [III]

* CATARINA RAMOS MACHADO E JOAQUIM SERRÃO RAFAEL *
- 26 ANOS CONSECUTIVOS NAS TIPOGRAFIAS CLANDESTINAS || [1947-1973] -

JOAQUIM RAFAEL
 [14/12/1907-22/07/1974]

                  [Diário de Lisboa, 24/07/1974]               

CATARINA MACHADO 
[1917-15/04/2010]

* ENTREVISTA A GINA DE FREITAS || DIÁRIO DE LISBOA || NOVEMBRO 1974 *



[Diário  de Lisboa, 27/11/1974]