[Cipriano Dourado]

[Cipriano Dourado]
[Plantadora de Arroz, 1954] [Cipriano Dourado (1921-1981)]

quinta-feira, 31 de julho de 2014

[0717.] GERTRUDES PEREIRA PAULINO DA SILVA [II]

* GERTRUDES PAULINO *

[24/04/1923 - 04/2012]
[Fotografia retidade do Blogue Antifascistas da Resistência]

|| 29 anos consecutivos na clandestinidade || 1945-1974 ||

Na História das Oposições há muitos nomes por (re)descobrir, estudar, enquadrar e revelar, tarefa tanto mais difícil quando viveram durante décadas em situação clandestina sem nunca terem sido detectados pela polícia política. É o caso de Gertrudes Paulino, com 29 anos consecutivos de clandestinidade, assumindo constantemente identidades diferentes, sem que a historiografia dedicada aos 48 anos de Ditadura a incluam ou sequer a mencionem.   

Costureira. 

Nasceu em Vila Franca de Xira a 24 de Abril de 1923 e faleceu em Abril de 2012, com 72 anos de militância comunista em 89 de vida. 

O pai, militante do Partido Comunista, trabalhava num armazém que tinha um negócio de cereais e possuía um barco com que os transportava; a mãe, costureira, fazia fatos para fora. 

Cresceu em Vila Franca, fez o exame da 4.ª Classe e gostaria de ter sido professora, desejo inviabilizado pelas condições económicas da família, com seis filhos a cargo. 

Marcada pelo espírito solidário da mãe e muito influenciada pelo pai, começou a ler muito nova o Avante! clandestino, a interessar-se por Alves Redol [1911-1969] e Soeiro Pereira Gomes [1909-1949] e a prestar atenção à situação em que viviam os trabalhadores e camponeses da lezíria. 


Coordenou em 1943-1944, com Georgette Ferreira e Otília Borrelho, uma greve das costureiras nas alfaiatarias locais e empenhou-se na formação de um sindicato daquelas. 

Em 1944, integrou o mesmo trio que juntou mulheres trabalhadoras junto à Praça de Touros de Vila Franca de Xira aquando da Marcha da Fome em 8 de maio de 1944 e destacou-se no apoio dados aos presos e suas famílias. 

No ano seguinte, com apenas vinte e dois anos, entrou na clandestinidade, formando casa com Manuel Luís da Silva Júnior [n. 27/08/1908], militante comunista desde 1932 com quem viria a casar, ainda que só depois do 25 de Abril. 

[Manuel da Silva || Fotografia retirada do Antifascistas da Resistência]

No âmbito da militância no Partido Comunista, esteve, tal como o companheiro, durante quase trinta anos consecutivos ligada à imprensa clandestina e a tipografias ilegais, sem nunca ser detida: passou pelo Algarve (Caldas de Monchique, onde conviveu com Maria Clementina Ventura, Luz de Tavira, São Brás de Alportel), Viseu (Besteiros), Cartaxo (Ereira), Torres Novas, Malveira, Porto, Lisboa (Rua Vítor Bastos, em Campolide, Travessa Barbosa, Tv. do Possolo, R. Arco do Carvalhão), Setúbal, Matosinhos, Famalicão e Vila do Conde.

Na vida clandestina passou por médica e professora. 

Usou o pseudónimo “Maria” e os dois filhos nasceram na clandestinidade: a rapariga, quando tinha três anos, foi para casa de uma tia-avó, enquanto o rapaz, nascido em 1954, partiu para a União Soviética com sete anos e formou-se em engenharia de telecomunicações. 

Só em 1974, após 29 anos de separação, é que Gertrudes Paulino reencontrou os pais. 

O jornal O Mirante entrevistou-a e dedicou-lhe várias páginas em 2006.

Feminae. Dicionário Contemporâneo incluiu estes dados biográficos.

[João Esteves]

sexta-feira, 25 de julho de 2014

[0716.] MANUELA CÂNCIO REIS [I]

* MANUELA CÂNCIO REIS *
[02/01/1910-08/12/2011]
[1931 - Pormenor]
Compositora, musicóloga e maestrina.

O pai, Francisco Filipe dos Reis, republicano que chegou a estar preso durante a Monarquia, era chefe dos escritórios da fábrica Cimento Tejo, em Alhandra, e teve considerável intervenção cultural na terra através dos espetáculos teatrais e de variedades que organizava, para além de ensaiador, dramaturgo, poeta e compositor. Foi o responsável pela conclusão da construção do Teatro de Alhandra, inaugurado em 1905, apenas cinco anos decorridos sobre a chegada à vila, e influenciou o percurso artístico da filha, que estudou em Lisboa e, depois, com professores particulares, tendo ainda aprendido piano e composição musical.

Manuela Câncio Reis casou a 25 de Maio de 1931, aos 21 anos, com Joaquim Soeiro Pereira Gomes [14/04/1909-05/12/1949], colega mais velho do irmão no curso de regente agrícola da Escola Nacional de Agricultura de Coimbra.

O enlace realizou-se nesta cidade, na Igreja da Conceição, e fixaram-se em Alhandra, por Soeiro Pereira Gomes passar a trabalhar como empregado de escritório na Fábrica de Cimentos Tejo.
 
[1931 - Manuela Câncio e Soeiro Pereira Gomes]
O marido, militante do Partido Comunista, teve de passar repentinamente à clandestinidade a 11 de Maio de 1944 na sequência do papel desempenhado nas greves de 8 e 9 do mesmo mês, no Ribatejo.

Manuela Câncio chegou a ser detida, como refém, e mantida na esquadra da polícia do Alto de S. João, episódio descrito no seu livro Eles vieram de madrugada [1981]. Apesar dessa prisão, nunca lhe foi aberto qualquer processo relacionado com a detenção ou sujeita a julgamento.

A partir do momento em que o marido entrou na clandestinidade, a vida de Manuela Câncio sofreu transformações profundas e dramáticas. Partiu para Lisboa, onde passou a trabalhar como secretária na empresa Campos Ferreira, exportador de vinhos, e a viver em pensões, não deixando de ajudar os pais.

Foram tempos difíceis e de dificuldades económicas, recebendo notícias espaçadas do marido através de Virgílio Barroso, irmão de Maria de Jesus Simões Barroso [n. 02/05/1925], matemático que assegurava a ligação entre ambos.

Durante esses cinco anos, até ao falecimento do marido, vítima de um cancro nos pulmões, tiveram apenas breves encontros.

No primeiro livro memorialista, Eles vieram de madrugada – cartas para a clandestinidade a Soeiro Pereira Gomes, de 1981, evoca momentos decisivos do marido, temática recuperada em A Passagem, uma biografia de Soeiro Pereira Gomes, datada de 2007, quando já tinha 97 anos de idade e com Introdução de Isabel Câncio Reis Nunes, sua sobrinha, que refere no início que “Esta é uma história de amor. A história de amor de um homem e de uma mulher, a história de amor de um homem pela terra e pelo Homem” [p. 9].

Após a sua morte, viria a casar, por pouco tempo, com Virgílio Barroso, sendo ajudada no divórcio deste segundo enlace pelo advogado Avelino Cunhal [28/10/1887-19/12/1966], pai de Álvaro Cunhal [10/11/1913-13/06/2005].

Se a sua vida tem sido retratada em função do percurso de militante e de escritor de Soeiro Pereira Gomes, é de salientar a importância que Manuela Câncio teve no panorama cultural e artístico de Alhandra, com projeção na capital, nomeadamente enquanto autora de várias composições – Fiandeira, Bexigueiros, Noite de Luar, Rapazes dos Telhais (marcha), Cantigas ao S. João (vira), Fado do Zé Miúdo, Ceifeiras –, algumas com letra do marido.

Musicou revistas regionais, escreveu e musicou, com Soeiro Pereira Gomes, a revista Sonho ao Luar, estreada, em 1937, no Teatro Salvador Marques e representada no Éden-Teatro, e regeu um agrupamento musical feminino orfeónico na Emissora Nacional.


Viveu os últimos anos numa casa de repouso na Parede.

Antónia Balsinha incluiu o seu nome no estudo pioneiro que fez sobre o papel das mulheres de Alhandra na resistência ao fascismo nos anos 40, tendo-a entrevistado em Agosto de 2001.

Faleceu a 8 de Dezembro de 2011, a menos de um mês de completar 102 anos.

Feminae. Dicionário Contemporâneo, editado pela CIG em 2013, incluiu a sua biografia.

[João Esteves]

segunda-feira, 21 de julho de 2014

[0715] ALCINA DE SOUSA BASTOS [III]


[07/04/1915-17/08/1993]
[Alcina Bastos sentada à direita durante o comício do general Humberto Delgado no Liceu Camões a 18 de Maio de 1958] [Fonte: CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_114759 (2014-7-22)]

Advogada e jurista, Alcina Bastos é mais um nome que tem sido estranhamente esquecido tanto pelo periodismo mediático como pela historiografia contemporânea, apesar de ter sido uma das poucas advogadas de presos políticos e da ativa participação na campanha presidencial do general Humberto Delgado [15/05/1906-13/02/1965] em 1958, sendo, não raras vezes, a única mulher a marcar presença nas mesas das sessões políticas então realizadas, apesar de se omitir a sua identificação.

Desde muito nova que Alcina Bastos, até por motivos familiares já que o pai, republicano, conspirou contra o salazarismo e foi condenado a quatro anos de prisão, se associou a quase todas as principais iniciativas de combate às ditaduras salazarista e marcelista, sempre com enorme coerência e dignidade, mantendo a mesma intervenção cívica nos quase 20 anos que viveu em democracia na sequência da revolução de Abril de 1974.

Filha de Filomena de Sousa Vilarinho Bastos e de Adelino Soares de Bastos, professor e inspetor escolar, nasceu em Fiães, concelho de Vila da Feira, a 7 de abril de 1915.

Fez a instrução primária na terra natal, frequentou o Colégio dos Carvalhos e, entre 1934-1935 e 1939-1940, cursou a Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, onde se licenciou e deu colaboração ao Socorro Vermelho Internacional (SVI).

Inicialmente, exerceu a advocacia no Porto, Espinho e Vila da Feira. Aí aderiu ao Movimento de Unidade Democrática (MUD) e militou na Delegação do Porto da Associação Feminina Portuguesa para a Paz, onde era a sócia n.º 211. 
  
Em 1949, empenhou-se na candidatura do general Norton de Matos à Presidência da República e, em 1958, integrou, juntamente com o irmão Joaquim Bastos, também advogado, a equipa que promoveu e organizou a candidatura presidencial do general Humberto Delgado, de quem foi colaboradora próxima e a quem procurou honrar a memória póstuma. Esteve diretamente envolvida no processo que procurou fundir as candidaturas de Arlindo Vicente [05/03/1906-24/11/1977] e a de Delgado.

Após as eleições, fez parte da Comissão Permanente do Movimento Nacional Independente (MNI), criado pelo general em 18 de junho, e desempenhou cargos no Centro Republicano António José de Almeida e Centro Escolar Republicano Almirante Reis

Solidária, defensora, enquanto advogada, de vários presos políticos, integrou a Liga Portuguesa dos Direitos do Homem.

Reconquistada a liberdade, empenhou-se no julgamento dos assassinos de Humberto Delgado, marcando presença nas audiências dos agentes da PIDE, e na trasladação dos restos mortais do general para Portugal e, depois, para o Panteão Nacional.

Após o 25 de Abril de 1974, aderiu ao Movimento Democrático Português (MDP), onde se manteve entre 1975 e 1979; participou no Conselho Português para a Paz e Cooperação (CPPC); interveio no âmbito da União dos Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP), de que fora uma das fundadoras e dirigente; tornou-se sócia da Associação das Mulheres Juristas; e integrou o Conselho Nacional do Movimento Democrático de Mulheres, eleita no II Congresso (1980) e no III Congresso (1984).

Casada com o militar republicano Armando Pereira de Castro Agatão Lança [19/08/1894-23/05/1965], também interveniente ativo nas conspirações para derrubar o regime que pôs fim à I República, teve uma filha (n. 1955) que seguiu o mesmo trajeto profissional da mãe.

Aquando da sua morte preparava um livro sobre o assassinato de Humberto Delgado.

Faleceu a 17 de agosto de 1993, tendo o voto de pesar aprovado pela Assembleia da República sublinhado que “o seu nome, ultimamente, aparecia pouco nas colunas da imprensa. Esquecimento injusto, porque Alcina Bastos foi uma das personalidades cuja intervenção na vida nacional, nos difíceis anos do fascismo, se caraterizou por uma firmeza e uma coerência exemplares”.
  
Quis ser enterrada com a sua toga no Cemitério dos Prazeres e, um ano depois, a título póstumo, foi-lhe atribuída a Ordem da Liberdade. 

[João Esteves]

domingo, 20 de julho de 2014

[0714.] AMÉRICO GUERREIRO DE SOUSA [I]

- AMÉRICO DE SOUSA -
[1918-1993]
[Dezembro de 1961]

Militante e dirigente do Partido Comunista, tendo integrado o seu Comité Central, Américo de Sousa, “O russo”, iniciou muito novo a atividade política, esteve várias vezes preso e conheceu as principais prisões (Aljube, Peniche, Caxias, Tarrafal), sendo enviado, com apenas 18 anos, para o Campo de Concentração do Tarrafal.

Fundidor de profissão, era filho de Maria Gonçalves e de Joaquim Mário de Sousa e nasceu em Lisboa, na freguesia de Santo Estêvão, em 1918 (a 18 de julho ou 3 de agosto, constando esta imprecisão da data na Biografia Prisional da autoria da polícia política).

A sua militância política iniciou-se na Federação das Juventudes Comunistas Portuguesas, quando trabalhava no Arsenal da Marinha, e prolongou-se por décadas, tendo sofrido a violência da ditadura mal completara os dezassete anos. 

Preso pela primeira vez a 7 de setembro de 1937, por atividades comunistas, percorreu, em escassos meses, o Aljube, Peniche e de novo o Aljube, de onde partiu para o Tarrafal: detido inicialmente numa esquadra, foi transferido para a Cadeia do Aljube a 30 de dezembro e, a 28 de abril de 1936, para a Fortaleza de Peniche, regressando ao Aljube a 6 de maio, data em que foi julgado e condenado pelo Tribunal Militar Especial a 18 meses de prisão correcional. 

Apesar de “só” faltarem cumprir 301 dias, foi enviado a 17 de outubro para o Campo de Concentração do Tarrafal, em Cabo Verde, integrando o grupo de presos que o foi inaugurar.

Cumprida a pena a que fora condenado, continuou preso no Tarrafal, de onde só saiu em 15 de julho de 1940, sendo então restituído à liberdade.

Voltou à luta política e escassos meses, ainda em 1940, integrou, com Joaquim Pires Jorge [28/11/1907-06/06/1984], José Gregório [m. 1961], Júlio Fogaça [1907-1980], Manuel Guedes [14/12/1909-08/03/1983], Militão Bessa Ribeiro [13/08/1896-02/01/1950] e Sérgio Vilarigues [1914-08/02/2007], o primeiro grupo que procurava a reorganização do Partido Comunista [JPP, Álvaro Cunhal – Uma biografia política, vol. 2, 1941-1949]. No ano seguinte, era funcionário, tal como todos aqueles, usando o pseudónimo de “Abel”.

Em julho de 1946, participou no II Congresso Ilegal do Partido Comunista realizado numa casa da Lousã com a ajuda do casal António e Natividade Correia [esta também desenvolvera atividade importante no seio das seções de Coimbra/Figueira da Foz da AFPP e CNMP] e teve importantes funções no Comité Local de Lisboa (anos 40/50). 

Porque há ainda muito que relacionar, Américo Guerreiro de Sousa chegou a controlar o historiador Jorge Borges de Macedo, cuja esposa, Branca Braga de Macedo, militou na década de 40 na Associação Feminina Portuguesa para a Paz, desempenhando cargos nas direções de 1947 e 1948. 

A 29 de setembro de 1955, quinze anos depois de sair do Tarrafal e quando era dirigente do Comité Local de Lisboa e destacado membro do Comité Central, foi preso em Lisboa e levado para o Aljube. A 22 de novembro passou para o Forte de Caxias, onde foi sujeito a continuados castigos.

A 3 de fevereiro de 1957 regressou ao Aljube, cadeia de onde se evadiu na madrugada de 26 de maio do mesmo ano com Carlos Brito e Rolando Verdial [a mãe deste, Emília Dionísia Ferreira dos Santos Silva Verdial, morreu a 7 de outubro de 1960, no regresso de uma visita ao filho, então preso em Caxias. Segundo o jornal Avante!, de novembro, o seu desaparecimento foi acelerado pela forma desumana e humilhante como a PIDE a tratou, não atendendo sequer à idade avançada da progenitora: começou por impedir a visita do dia 6 pelo facto de Emília e Mem Verdial, vindos do Porto, terem chegado minutos depois da hora regulamentar; no dia seguinte concederam-na, mas não foi permitida aos pais que se aproximassem do preso, o beijassem e abraçassem; e o desenlace fatal deu-se no regresso a casa, chegando já sem vida à sua residência] através da janela de uma enfermaria desativada situada no último andar e para onde tinham sido enviados os presos mais perigosos: cortaram parte das grades e, após passarem por vários prédios, apanharam um táxi no Largo da Graça.

E porque não é possível haver resistência(s) sem mulheres, aquela fuga contou, entre outros, com o apoio da militante comunista Deolinda Franco.

Mais uma vez, regressou ao trabalho clandestino do Partido Comunista, continuando a integrar o Comité Central eleito no V Congresso realizado entre 8 e 15 de dezembro de 1957. Então, entre as pessoas que controlaria estava o advogado Manuel João da Palma Carlos, ambos com papel de relevo na preparação das eleições presidenciais de 1958 [JPP, Álvaro Cunhal, vol. 3]. No âmbito do trabalho partidário no terreno, e segundo Pacheco Pereira, Américo de Sousa defendeu a partir de certa altura a desistência de Arlindo Vicente enquanto candidato presidencial e o apoio a Humberto Delgado.

No ano seguinte, em abril, integrou com Alexandre Castanheira [n. 1928] e Octávio Pato [01/04/1925-19/02/1999] a delegação do Partido Comunista que se reuniu em Itália com o Partido Comunista Italiano.

Américo de Sousa voltou a ser preso a 15 de dezembro de 1961, juntamente com Carlos Costa, quase cinco anos depois de andar fugido e ter regressado à clandestinidade, constando da sua ficha prisional a indicação que tinha na cara marcas de varíola para, assim, ser mais facilmente identificado.

Nesta sua terceira prisão, voltou a fazer o percurso Caxias-Aljube-Peniche, prisão para onde foi transferido a 18 de abril do ano seguinte por ter sido condenado, por cúmulo jurídico, a 4 anos.

O vaivém entre as prisões não para, já que a 1 de junho de 1964 entrou, mais uma vez, em Caxias de onde foi transferido, a 25 de setembro, para Peniche. 

No ano seguinte, a 23 de fevereiro de 1965, foi condenado na pesada pena de oito anos e meio, supressão de direitos políticos por quinze e medidas de segurança de internamento de seis meses a três anos, prorrogável, as quais iniciou em dezembro de 1968.

Quase toda a década de 1960 foi passada em prisões, já que Américo de Sousa só seria libertado a 20 de outubro de 1971, depois de ter estado preso consecutivamente quase dez anos.

Em 53 anos de idade, totalizou cerca de 16 anos nas prisões salazaristas e 19 de intensa e continuada luta clandestina.

Dirigente da URAP depois do 25 de Abril de 1974.

Faleceu em Março de 1993

   [João Esteves]

sexta-feira, 18 de julho de 2014

[0713.] MARIA REGINA DIAS CARVALHEIRO [I]

* MARIA REGINA DIAS CARVALHEIRO *
[27/10/1917 - 14/06/2003]
[in Alberto Vilaça, O MUD Juvenil em Coimbra - História e estórias, Campo das Letras, 1998]

Prestigiada antifascista e militante comunista, a advogada Regina Carvalheiro foi uma das principais referências do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas e da Associação Feminina Portuguesa para a Paz na Figueira da Foz e em Coimbra e pertenceu, durante décadas consecutivas, aos meios oposicionistas das duas cidades.

Filha de Albertina Teixeira Dias Carvalheiro [11/05/1890-15/06/1976] e de Manuel Duarte Carvalheiro [19/10/1889-01/11/1949], Maria Regina Dias Carvalheiro nasceu na freguesia de S. Julião, Figueira da Foz, a 27 de outubro de 1917 e faleceu na mesma localidade a 14 de junho de 2003, com 85 anos de idade. 

No ano letivo de 1937/1938, quando tinha 18 anos, matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, datando desse período a leitura do jornal clandestino Avante!.

Em 1946, quando era notária na sua terra natal [1945-1949], integrou, juntamente com a irmã Maria Celinda Dias Carvalheiro [21/08/1915-25/12/2000], o grupo das catorze subscritoras que, através de abaixo-assinado dirigido à Presidente do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, Maria Lamas [1893-1983], solicitou a criação duma delegação na Figueira da Foz, “tendo em vista levar a efeito várias realizações de alcance cultural e social, no sentido de elevar a mulher a um grau de maior dignificação e de prestar à criança a assistência de que carece” [documentação cedida por Maria da Natividade dos Santos Silva Pinheiro Correia, n. 09/02/1922].

Concluiu o curso de Direito no ano letivo de 1948/1949 e foi enquanto “candidata a advocacia” que aderiu ao núcleo de Coimbra da Associação Feminina Portuguesa para a Paz, a que aderiu, tal como a irmã, por intermédio de Eva Amado [n. 21/01/1908], cunhada de Armando Bacelar [25/08/1918-1998].

Em Outubro de 1950, foi eleita 1.ª Secretária da Delegação de Coimbra da AFPP. 

A ação de Regina Carvalheiro estender-se-ia também a Lisboa, já que foi por seu intermédio que a médica Maria da Purificação Araújo aderiu a essa agremiação, tendo o convite sido concretizado numa das varandas do cinema São Jorge, em Lisboa.   

Exercendo advocacia em Coimbra e na Figueira da Foz, “participou ativamente em todos os movimentos oposicionistas desde a campanha do general Norton de Matos para a Presidência da República” [Mário Matos Lemos, 2009].

Presa em 1962, tal como Eva Amado e a professora Madalena Coelho Marques de Almeida [01/02/1916-2013] , foi julgada no Tribunal Plenário de Lisboa, tendo sido absolvida.

Na década de 1970, integrou o Movimento Democrático de Coimbra, tendo sido candidata pela lista da oposição às eleições de 1973 para a Assembleia Nacional.

Em janeiro de 1974, integrou o grupo de cidadãos que procurou realizar em Coimbra uma sessão comemorativa do 31 de Janeiro de 1891 e que foi recusada pelo Governador Civil [Blogue Livre e Humano].

Na sequência do 25 de Abril de 1974, a 28 de abril fez parte da delegação daquele Movimento, juntamente com Alberto Vilaça [07/12/1929-21/05/2007], João Vilar, Luís Carlos Januário, Trocado da Costa e Victor Costa, que se dirigiu a Lisboa para o Encontro Nacional de todos os movimentos democráticos nacionais. Segundo Victor Costa, seria a única mulher presente [Victor Costa, A força do povo - o 25 de Abril em Coimbra, Lápis de Memórias, 2014].

Em 1975, esteve, juntamente com os professores Carrington da Costa, Luís Albuquerque, Orlando de Carvalho, Paulo Quintela, e Teixeira Ribeiro, Rui Clímaco, Major Lestro Henriques, Padre Cruz Dinis, Maria Benedita Albuquerque, Ivone Teles e Manuela Macário, na fundação do Núcleo de Coimbra do Conselho Português para a Paz e Cooperação.

[Albano Cunha - 1915-1968]
Casada com Albano Rodrigues da Cunha [04/04/1915-05/08/1968], advogado e militante comunista muito considerado em Coimbra, várias vezes preso e torturado pela PIDE sem ter prestado quaisquer declarações.

[João Esteves]

quarta-feira, 16 de julho de 2014

[0712.] MARIA JUDITE PINTO MENDES DE ABREU [I]

* MARIA JUDITE PINTO MENDES DE ABREU *
[16/02/1916-10/05/2007]
[09/02/1974: Discursando na Homenagem a Cristina Torres dos Santos e José Rafael Sampaio, in Joaquim Sousa, Cristina Torres, 1983]

A Figueira da Foz conta com alguns nomes de mulheres muito relevantes (e pouco estudados) na oposição ao Estado Novo, entre os quais sobressaem os de Cesaltina Benguela Carrapiço Vasco, casada com o médico comunista Gilberto Vasco, Cristina Torres dos Santos [0711], Lucinda Mendes [Saboga], companheira de Agostinho Saboga, as irmãs Maria Celinda e Maria Regina Dias Carvalheiro, esta casada com o advogado Albano Cunha, Natividade Pinheiro (mãe) e Maria Judite Pinto Mendes de Abreu.
  
Filha de Guilhermina Andrade Pinto e de Maurício Augusto Águas Pinto, republicano e democrata que se evidenciou no combate à ditadura, Maria Judite Pinto Mendes de Abreu nasceu na Figueira da Foz a 16 de fevereiro de 1916 e faleceu em Coimbra a 10 de maio de 2007, com 91 anos de idade.

Matriculou-se, aos 17 anos, na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, tendo concluído o curso no ano letivo de 1937/1938, com a classificação de 15 valores, e era também licenciada em Germânicas, curso onde conviveu com Madalena Coelho Marques de Almeida [0492], nome igualmente importante nas lutas oposicionistas das décadas de 40 e de 50 naquela cidade. 

Tal como o pai, interveio, depois da II Guerra, na oposição democrática, intervindo nas suas principais iniciativas e movimentos. Por isso, apenas pode lecionar no ensino particular já que, por motivos políticos, lhe foi recusada a possibilidade de trabalhar na Escola Brotero, em Coimbra. 

Fez parte do Movimento de Unidade Democrática e, em 1946, integrou o numeroso grupo constituído por mais de cem mulheres que solicitou a Maria Lamas [0555], na qualidade de Presidente do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, a constituição de um núcleo em Coimbra, “tendo em vista levar a efeito várias realizações de alcance cultural e social, no sentido de elevar a mulher a um grau de maior dignificação, e de prestar à criança a assistência de que carece”.

Presidiu, nos últimos meses do CNMP, a esse importante núcleo, dando continuidade ao trabalho desenvolvido por Maria da Luz Casanova. 

Militou, no mesmo período, na Associação Feminina Portuguesa para a Paz, à qual aderiu por intermédio de Maria Joana Rosendo Dias. 

Interveio, entre 1949 e 1973, em todas as campanhas eleitorais da oposição e muito apoiou as lutas dos estudantes da academia de Coimbra, nomeadamente em 1962 e 1969. 
  
Nos últimos anos da ditadura, integrou a Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos, o que lhe trouxe vários dissabores, e o Movimento Democrático de Coimbra, com intervenção local e distrital significativa.

Aderiu, depois do 25 de Abril de 1974, ao Partido Socialista. Devido ao seu percurso e intervenção cívica, foi indigitada para Presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal da Figueira da Foz (de 30 de outubro de 1974 a dezembro de 1976), tendo sido eleita Presidente da Câmara Municipal de Coimbra nas primeiras eleições autárquicas (1976-1979).

Em 1983, recebeu, do Presidente da República general Ramalho Eanes, a Ordem da Liberdade.  

[João Esteves]

terça-feira, 15 de julho de 2014

[0711.] CRISTINA TORRES DOS SANTOS [V]

* CRISTINA TORRES DOS SANTOS -
- O ÚLTIMO DISCURSO *
[24/08/1974]
[Cristina Torres numa homenagem em 9 de Fevereiro de 1974
in Joaquim Sousa, Cristina Torres, Figueira da Foz, 1983]
- Discurso proferido a 24 de Agosto de 1974 no comício do Partido Socialista realizado no Coliseu Figueirense - 

[in Joaquim Sousa, Cristina Torres, Figueira da Foz, 1983]

[0710.] CRISTINA TORRES DOS SANTOS [IV]

* CRISTINA TORRES DOS SANTOS *
[21/03/1891-01/04/1975]
[1911]


Professora do ensino técnico na Figueira da Foz e em Braga, Cristina Torres é ainda muito pouco (re)conhecida enquanto defensora dos direitos das mulheres, republicana e resistente à Ditadura Militar e Estado Novo, sofrendo, por isso, várias perseguições que culminaram na sua aposentação. Teve um percurso invulgar, até pelas origens modestas, pautando-se, ao longo de toda a vida, por uma sólida coerência e postura cívica. 

Filha de Ricardo Torres dos Santos, alfaiate, e de Delfina da Cruz Marques, nasceu na Figueira da Foz a 21 de março de 1891.

Em 1914, casou com o jornalista Albano Correia Duque de Vilhena e Nápoles [1894-1963].

Começou a frequentar muito nova as sociedades operárias, recreativas, educativas, republicanas e maçónicas e, com 19 anos, festejou nas ruas a implantação da República, tendo militado no Partido Republicano Português, tal como o marido.

Trabalhou como costureira e estudou, à noite, na Escola Industrial da Figueira. 

Em 1911, fundou a Fraternidade Feminina, Associação de Instrução e Beneficência responsável pelo funcionamento de uma escola nocturna para raparigas e, no ano seguinte, com 21 anos, partiu para Coimbra, onde continuou a labutar como modista enquanto estudava no Liceu e, posteriormente, na Faculdade de Letras [anos lectivos de 1916/1917 a 1918/1919], onde concluiu, em Novembro de 1920, o curso de Histórico-Geográficas.

Leccionou, entre 1915 e 1922, em Escolas Móveis de Coimbra e Montemor-o-Velho e, entre janeiro de 1922 e julho de 1924, exerceu como professora provisória a docência na Escola Comercial da Figueira da Foz. Neste último ano, e devido a diligências dos seus alunos, foi nomeada professora efectiva da Escola Industrial de Bernardino Machado. 

Na sequência do trabalho desenvolvido como educadora e pedagoga, expôs Teses em vários Congressos [Coimbra, Abril de 1918 - Porto, 1927 - Lisboa, Outubro de 1931]; associou-se ao projecto de fundação na Figueira da Foz de uma Delegacia da Universidade Livre de Coimbra [1929], responsável pelo funcionamento de cursos nocturnos de educação básica; e foi nomeada Delegada Voluntária de Vigilância para a Tutoria da Infância da respectiva Câmara Municipal [26/02/1932].

Manteve simultaneamente intensa actividade de propagandista, promoveu conferências, discursou em sessões e pronunciou-se, na imprensa regional da Figueira e de Coimbra, sobre questões feministas, educativas e políticas, para além de publicar esporadicamente poemas e contos para crianças. Utilizou os pseudónimos de Maria República, nos artigos de carácter político, e Nô-quim, nos textos dirigidos aos mais novos.

Mulher simples, obreira de uma persistente actividade pedagógica dirigida aos desfavorecidos, ao operariado e às mulheres, Cristina Torres acabou por ser vítima da corajosa oposição ao salazarismo, tendo sofrido "prisões e martírios", e foi transferida compulsivamente, em dezembro de 1932, para a Escola Industrial e Comercial de Bartolomeu dos Mártires, em Braga, onde permaneceu dezassete anos. Datam desse período os dois livrinhos [Contos e Fábulas] que escreveu, dedicados “Às raparigas e rapazes que passaram pelas minhas aulas e a quem devo as melhores horas da minha vida”, e os seus artigos para a Seara Nova, então dirigida por Câmara Reys.

Acabou por ser afastada do ensino em 1949, na sequência da participação na Campanha de Norton de Matos [23/03/1867-03/01/1955] à Presidência da República, e obrigada a aposentar-se. 

De regresso à Figueira, subsistiu através de explicações, continuou a resistência ao Estado Novo – pertenceu à Comissão Nacional do III Congresso da Oposição Democrática, realizado em Aveiro, em 1973 – e saudou com emoção e alegria a data de 25 de Abril de 1974. 

Apesar dos seus 83 anos, integrou a manifestação de apoio ao M.F.A. que, no dia 27 de Abril de 1974, se realizou na Figueira. Tinha a felicidade de, pela segunda vez na vida, festejar na rua a mudança de regime político: 64 anos depois de se empenhar no triunfo da República, era a vez de assistir ao início da Democracia, pela qual tanto tinha lutado e sacrificado. 

Segundo Joaquim Sousa, autor de um importante livro dedicado a Cristina Torres, a 10 de agosto integrou, enquanto convidada, a mesa do primeiro comício do Partido Comunista realizado na cidade. 

A 24 de agosto, participou e interveio no comício do Partido Socialista, partido a que aderiu pouco tempo depois e “foi eleita, por unanimidade e aclamação, Presidente Honorária da Seção” [Joaquim Sousa].


Faleceu a 1 de Abril de 1975, estando representados no seu funeral o Partido Socialista, o Partido Comunista, o MDP/CDE e o Partido Popular Democrático.

O perfil de educadora, cujo legado perdurou em muitos dos seus alunos, e a postura cívica e política tornaram-na numa referência local e motivaram a atribuição do nome Cristina Torres à Escola Secundária Nº 3 da Figueira da Foz. 

Ofereceu o seu espólio, bem como o do marido, ao Museu e à Biblioteca da sua terra. Constituído por manuscritos, correspondência, artigos publicados, discursos, panfletos, informações acerca da intervenção política e enquanto professora e educadora, documentos biográficos, homenagens e fotografias, serviu de base à exposição que a Câmara Municipal lhes dedicou em 1992 e da qual resultou um minucioso catálogo.

O Dicionário de  Educadores Portugueses [dir. de António Nóvoa), Asa, 2003] contém a sua biografia, assim como o Dicionário no Feminino (séculos XIX-XX) [Livros Horizonte, 2005].

[João Esteves]

[0709.] GLÓRIA MARREIROS [III]




[0708.] LAURA CELESTE TAVARES MENDES LEMOS [I]

[18/09/1894-08/09/1979]

* ASSOCIAÇÃO FEMININA PORTUGUESA PARA A PAZ || COIMBRA *

Eis mais um nome pouco (re)conhecido e que, no entanto, teve papel relevante no âmbito da seção de Coimbra da Associação Feminina Portuguesa para a Paz.

Professora, filha de Rosa de Jesus Tavares e de José Tavares Mendes, Laura Celeste Tavares Mendes nasceu na Covilhã a 18 de setembro de 1894 e faleceu a  8 de setembro de 1979, com 84 anos de idade. 

Casou a 21 de novembro de 1916, em Tuy, Espanha, com o pedagogo conimbricense Álvaro Viana Lemos [28/03/1881-21/08/1972], terra onde o marido se tinha exilado nesse mesmo ano, nasceu a filha, Carolina Tavares de Lemos [n. 24/12/1917], e viveu até 1919. 

Aderiu na década de 40, por proposta de Maria Joana Rosendo Dias, à delegação de Coimbra da Associação Feminina Portuguesa para a Paz. 

Foi eleita sua Presidente nos anos de 1950-1951 e 1951-1952, sendo em sua casa, na Rua Infante Dom Henrique, que funcionava a sede local da agremiação. 

Por seu intermédio, o marido, Álvaro Viana de Lemos, foi um dos associados masculinos da AFPP, tendo a filha de ambos sido uma das fundadoras  do núcleo local.

[João Esteves]

quinta-feira, 10 de julho de 2014

[0707.] GABRIELA MONJARDINO DE AZEVEDO GOMES NEMÉSIO [I]

[1900-1980]

* ASSOCIAÇÃO FEMININA PORTUGUESA PARA A PAZ || COIMBRA *

Nascida Gabriela Monjardino de Azevedo Gomes, filha de Francisco de Azevedo Gomes e de Georgina de Ornelas de Almeida Monjardino [26/01/1870-22/10/1930], nasceu na Horta, Faial, a 21 de maio de 1900 e faleceu em Lisboa a 29 de agosto de 1980, com 80 anos. 

Casou em Coimbra, na Igreja de Sta. Maria de Celas, a 12 de fevereiro de 1926, com o professor e escritor Vitorino Nemésio [19/12/1901-20/02/1978], igualmente açoriano, da Praia da Vitória, Ilha Terceira, e que concluíra, em 1921, o Liceu naquela cidade e onde pediu para ser sepultado.

Nos anos 40, Gabriela Monjardino Gomes Nemésio tornou-se, por proposta da professora de Educação Física Maria Joana Duarte Rosendo Dias, sócia do núcleo de Coimbra da Associação Feminina Portuguesa para a Paz.

Tornou-se sua Presidente provisória em 1949-1950, nomeada por indicação de Lisboa.

Embora a Presidente eleita em 1950-1951 e 1951-1952 fosse Laura Celeste Tavares Mendes [Lemos], casada com Álvaro Viana de Lemos, foi Gabriela Nemésio que, a 26 de março de 1952, foi intimada da dissolução e encerramento daquela, devendo indicar o nome e morada dos restantes membros dos corpos gerentes [(1947-1952), “Processo Associação Feminina Portuguesa para a Paz”, CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_149100 (2014-7-10)]. 

Apesar de o marido se encontrar a lecionar em Lisboa, Gabriela Nemésio manteve sempre uma grande ligação a Coimbra, onde se relacionava há muito com vários inteletuais ligados à oposição, nomeadamente com a família Cochofel, sendo que Maria Albina de Manique e Melo Cochofel [12/09/1887-29/10/1947] e Maria da Graça Simões de Carvalho Dória Cochofel, respetivamente mãe e esposa de José João Cochofel [1919-1982], integravam o núcleo de Coimbra do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas

Sobre o convívio de Gabriela Nemésio com a família Cochofel, ver os recentes estudos e conferências de Helena Lopes Braga [De Francine Benoît e algumas das suas redes de sociabilidade: invisibilidades, género e sexualidade entre 1940 e 1960 - dissertação de Mestrado; "Para a história da invisibilidade lésbica na musicologia - Francine Benoît"; Mulheres da oposição - elites culturais e artísticas em torno de Francine Benoît - conferência proferida a 21 de junho de 2014 na Casa da Achada / Centro Mário Dionísio]

Por sua vez, a filha mais nova, Ana Paula Nemésio [Ana Paula Monjardino de Azevedo Gomes Nemésio, n. 20/12/1931], quando estudante do Liceu, aderiu nos anos de 1947-1948 ao MUD Juvenil local, segundo informação de Alberto Vilaça [O MUD Juvenil em Coimbra. História e estórias, 1998].  

 [João Esteves]

terça-feira, 8 de julho de 2014

[0706.] MARIA CESARINA MARTINS TAVARES GONÇALVES DE CASTRO [I]


- Maria Cesarina Martins Tavares Gonçalves de Castro ou o discreto trabalho na retaguarda -

Pelo Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, fundado há cem anos, em 1914, e encerrado pela ditadura salazarista em 1947, passaram três grupos distintos de mulheres: o primeiro, conotado com o republicanismo, com intervenção durante a Monarquia e os primeiros anos da República; o da década de 1920, que incluiu as primeiras jovens estudantes universitárias ou recém-licenciadas, como Elina Guimarães [1904-1991] [0558, 0559]; e o da década de 1940, quando a organização ganhou novo fôlego com o aproximar da derrota do nazismo e a liderança de Maria Lamas [1893-1983].

Nos três grupos, as mulheres que aderiram, filiando-se formalmente, apresentam vivências únicas, a maioria das quais por redescobrir.

No caso das mulheres que se empenharam nos anos 40 – várias centenas encontram-se já recenseadas – há, na maioria das situações, ligações, ora explícitas ora clandestinas, aos movimentos de oposição ao salazarismo e ao Estado Novo.

Cada nome representa uma vida por recontar. E quando se descortinam as redes familiares, profissionais e de sociabilidades encontram-se conexões surpreendentes. 

É o caso de Maria Cesarina Martins Tavares Gonçalves de Castro. 

Compareceu, entre novembro de 1945 e junho de 1947, a 18 reuniões do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas [v. Célia Costa, O Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas (1914-1947) - uma organização feminista], tal como Maria Alda Nogueira [1923-1998], entre outras, e ocupou o cargo de Tesoureira na última direção eleita (25/06/1946), sendo aquela presidida por Maria Lamas.

Depois o seu nome, praticamente ignorado atualmente, desaparece com a proibição do CNMP.

Só que este nome, aparentemente “irrelevante” como tantos outros, já que parecia não sobressair entre as que se empenhavam ativamente na luta oposicionista, desempenhou, com o marido – Mário da Costa Carvalho Gonçalves de Morais e Castro –, importantíssimo trabalho de retaguarda de proteção aos principais dirigentes do Partido Comunista na clandestinidade e que, não raras vezes, faziam da sua casa porto de abrigo seguro. 
  
Filha de José Eduardo Tavares, de origem aristocrática alentejana que abandonou a lavoura para se instalar em Lisboa por questões sentimentais, onde cursou Veterinária, e de Antónia Adelaide Martins, nasceu na capital a 9 de junho de 1912. 

Segundo o filho, o advogado e ator José Armando Tavares de Morais e Castro [30/09/1939-22/08/2009], frequentou um colégio, onde foi colega de Beatriz Fogaça, irmã mais velha de Júlio Fogaça, tinha uma formação católica apostólica romana e chegou a pensar ser freira, tendo, pelo casamento com Mário da Costa Carvalho Gonçalves de Morais e Castro [n. 19/03/1914] e convívio com a família deste, nomeadamente o primo Armando de Castro [Armando Fernandes de Morais e Castro, 18/07/1918-16/06/1999], modificado a forma de pensar e virado à esquerda.

Na entrevista concedida a Miguel Medina [1951-2006] por José Morais e Castro, este afirma que tanto o pai – republicano, apoiante da campanha presidencial de Norton de Matos – como a mãe terão entrado para o Partido Comunista através do convívio com Aníbal da Silva Bizarro [n. 21/02/1908], ex-tarrafalista [1937-1944] empregado na Philips onde Mário de Morais e Castro era secretário da administração, passando a casa, sita em Campo de Ourique, a funcionar como local de apoio do Comité Central. 

Pela residência passaram vários e relevantes dirigentes comunistas: Álvaro Cunhal [1913-2005], Américo de Sousa [1918-1993], António Dias Lourenço [1915-2010], Francisco Martins Rodrigues [1927-2008], Jaime Serra [n. 1921], Joaquim Pires Jorge [1907-1984], José Dias Coelho [1923-1961], Júlio Fogaça [1907-1980], Octávio Pato [1925-1999], Sérgio Vilarigues [1914-2007], entre outros. 

Aquando da fuga de Peniche, Álvaro Cunhal chegou a estar refugiado naquela casa cerca de um mês com Isaura Moreira e a filha de ambos, de escassos meses.  

Curiosamente, a casa funcionaria também como tesouraria do Partido Comunista, tendo Maria Cesarina Martins Tavares Gonçalves de Castro desempenhado exatamente o cargo de Tesoureira quando integrou o CNMP.

Devido à importância que a casa tinha, não era possível aos seus donos e ocupantes exercerem quaisquer outras atividades políticas em simultâneo, percebendo-se, assim, por que razão o nome de Maria Cesarina é ainda tão pouco referenciado. No entanto, devia ser das pessoas que teria muito a contar, já que raras terão sido as casas por onde passaram tantos e tão variados dirigentes de épocas distintas, sem que tenha sido alguma vez identificada pela polícia política.

Refira-se que o tio do marido, Amílcar Gonçalves de Morais e Castro [n. 1896] esteve várias vezes preso e a sua mulher, Irene Fernandes de Morais e Castro [1895-1975], presidiu à seção do Porto da Associação Feminina Portuguesa para a Paz.

[João Esteves]

segunda-feira, 7 de julho de 2014

[0705.] SOFIA DE OLIVEIRA FERREIRA [I]

* SOFIA DE OLIVEIRA FERREIRA *

[01/05/1922-22/04/2010]
[1955 - Clandestinidade]

* A mulher que totalizou mais tempo de prisão por motivos políticos: 12 anos e 3 meses *

Filha de trabalhadores rurais com muitas dificuldades económicas, nasceu em Alhandra a 1 de maio de 1922, ainda que no registo conste dia 10, e com dois anos foi viver para Vila Franca de Xira. 

Sem condições para ir à escola e estudar, começou a labutar na agricultura ainda garota, fazendo, com dez anos, todo o tipo de trabalho como “as mudas, as sachas, a apanha de favas, andar com as éguas a gradar” e ganhando “um pouco menos que a minha mãe, cerca de três escudos” [João Céu e Silva, Álvaro Cunhal e as mulheres que tomaram partido, Porto, Edições ASA, 2006]. 

Aos doze foi viver para casa dos padrinhos, em Lisboa, onde ajudava nos trabalhos domésticos: “Havia pessoas idosas e também cuidava delas, existia um quintal com criação e eu cuidava também da criação. Foi aí que aprendi a ler, com uma vizinha que me ensinou as primeiras noções, num livro do João de Deus, e a fazer contas. Na casa havia livros que me interessavam, As Pupilas do Senhor Reitor, por exemplo, que gostava muito de ler. Comecei a escrever para a minha família, para os meus pais e para as minhas irmãs que tinham ficado em Vila Franca. Depois, a minha irmã mais nova, a Mercedes, foi ter comigo e fez a 4.ª classe porque eles pagaram!” [palavras de Sofia Ferreira a João Céu e Silva]. 

Em 1945, na sequência do crescimento da luta política na zona de Vila Franca de Xira e por influência das irmãs Georgette [n. 25/07/1925] e Mercedes de Oliveira Ferreira [n. 09/12/1928], tornou-se militante do Partido Comunista Português, entrando, por intermédio de António Dias Lourenço [25/03/1915-07/08/2010], na clandestinidade em 1946. Tinha então 24 anos e, embora fosse mais velha do que aquelas duas, foi a última a entrar na luta política, sendo que o irmão não manteve intervenção política ativa, o que se revelou importante por permitir dar apoio, com a mulher, aos pais já idosos, circulando as informações com muita dificuldade e morosidade, “apesar do esforço da direção do partido para obter informações dos familiares” [entrevista a Antónia Balsinha de 30/09/2000, p. 223]. 

Durante as suas duas prisões, recusou sempre prestar quaisquer declarações sobre as atividades partidárias, apesar da violência policial, incluindo a tortura, aquando da primeira detenção. 

Esteve, durante pouco mais de dois anos, numa casa clandestina no concelho da Figueira da Foz onde era impresso O Militante: “Era uma localidade muito pobre. Havia uma vizinha que nos ia buscar água porque a casa não tinha eletricidade, nem água, trabalhávamos à luz dos candeeiros. A casa ficava isolada dentro duma quinta e não existia nenhuma casa perto” [palavras ditas a João Céu e Silva]. 

Em finais de 1948, ocupou com Álvaro Cunhal [1913-2005] uma casa do Secretariado instalada no Luso (Mealhada), usando o pseudónimo “Elvira” e passando os dois por um “casal”. A 25 de março de 1949 era presa pela primeira vez, juntamente com aquele e Militão Bessa Ribeiro [13/08/1896-02/01/1950] que, andando fugido à PIDE que estava no seu encalço, procurou ali refúgio: a detenção, “de uma violência impressionante”, tendo inclusivamente sido apontada uma arma à cabeça de Álvaro Cunhal, deu-se de surpresa durante a noite, quando todos dormiam, com a PIDE bem armada e o local cercado. 

Levada para a sede da PIDE do Porto, aí encontrou Luísa Rodrigues [1903-1961], companheira de Militão Ribeiro detida a 10 de fevereiro de 1949 em Macinhata do Vouga, Sever do Vouga, e que se encontrava em estado grave, sobretudo do ponto de vista psíquico, procurando, dentro do possível, aliviar o seu sofrimento psicológico. 

Na subdiretoria do Porto, onde permaneceu seis meses “completamente isolada e proibida de fazer o que quer que fosse” [João Pina e Rui Daniel Galiza, “Sofia Ferreira – A prisioneira política portuguesa com mais tempo de detenção”, Por Teu Livre Pensamento – Histórias de 25 Ex-Presos Políticos, Lisboa, Assírio & Alvim, 2007, pp. 68-69 e 179-182], Sofia Ferreira seria sujeita a persistentes interrogatórios, que incluíram agressões físicas e ameaças várias. 

Foi transferida para Caxias a 15 de setembro, posta à disposição do Tribunal Criminal de Lisboa a 21 do mesmo mês e libertada no dia 31 de outubro, por ordem do 3.º Juízo Criminal de Lisboa, mediante o pagamento de caução. Aquando do julgamento, com Álvaro Cunhal, no Tribunal da Boa Hora a 2 e 9 de maio de 1950, foi defendida pelo advogado Manuel João da Palma Carlos [24/06/1915-01/11/2001]. Sofia Ferreira foi então condenada em dezoito meses, pena agravada para vinte meses e um ano de medidas de segurança e privada de direitos políticos durante três anos, por pertencer ao Partido Comunista, só saindo da cadeia a 4 de fevereiro de 1953.

Regressou à atividade política e em julho desse mesmo ano partiu para o Porto, onde esteve dois anos a desenvolver trabalhos técnicos. 

Em 1957, passou a atuar em Lisboa e em setembro, no V Congresso realizado numa casa em S. João do Estoril, foi eleita membro suplente do Comité Central. 

Tornou a ser presa, desta vez em Lisboa, no bairro das Amoreiras, a 28 de maio de 1959, quando se dirigia para um encontro político com o companheiro António Santo, também ele detido: embora fossem companheiros e pertencessem ao mesmo organismo partidário, por uma questão de segurança não habitavam a mesma casa clandestina. 

Recolheu ao Forte de Caxias e recusou, mais uma vez, prestar quaisquer declarações à PIDE. Na sequência do julgamento realizado em maio de 1960, foi condenada a cinco anos e meio de prisão, mais três anos de medidas de segurança, só sendo libertada a 5 de agosto de 1968, o que a tornou a presa política com mais tempo de cativeiro: 12 anos e três meses. Nem mesmo quando a mãe, Joaquina de Oliveira Ferreira, faleceu em março de 1965 lhe foi concedida autorização para ir ao velório.

Os anos de cativeiro em Caxias foram particularmente difíceis: “A alimentação nesse tempo era insuficiente e mal confecionada. A assistência, praticamente não existia. Havia proibições e limitações constantes de entradas de jornais e livros e, até, de trabalhos manuais. Ao mesmo tempo assistia-se a constantes provocações dos carcereiros, castigos, tanto nas celas como nos segredos e espancamentos. Tinha-se conhecimento e presenciava-se as saídas e entradas de companheiros, mulheres e homens, para interrogatórios, de onde regressavam em estado lamentável, gritando, gemendo e arrastando os pés pelos corredores em consequência das torturas” [testemunho prestado a Rose Nery Nobre de Melo, Mulheres Portuguesas na Resistência, Lisboa, Seara Nova, 1975, pp. 48-57]. 

Depois de nove anos e três meses detida, exatamente o mesmo período do do companheiro, este em Peniche, casou, em novembro, com António Santo. 

Após uma passagem de ano e meio pela União Soviética, onde viveu a lua-de-mel, procurou recuperar a saúde abalada e desempenhou tarefas políticas, voltou à militância, continuando a não viver na mesma casa do marido por questões de segurança: integrou, com Cecília Areosa Feio [05/12/1921-08/02/1980], Maria da Piedade Morgadinho, Maria José Ribeiro e Maria Luísa Palhinha da Costa Dias [15/10/1916-10/05/1975], a delegação portuguesa ao Congresso Mundial das Mulheres em Helsínquia, realizado entre 14 e 17 de junho de 1969, onde se abordou as condições de vida das trabalhadoras, as iniciativas em defesa da paz e campanhas de solidariedade realizadas no país, e em 1970 regressou a Portugal. 

Em Abril de 1974, residia, com Maria Lourenço Calção Cabecinha [n. 1937], numa casa clandestina na Damaia de Baixo. 

Usou os pseudónimos “Soares” e “Elvira”. 

Manteve-se no Comité Central até 1988 e faleceu a 22 de abril de 2010, com 87 anos de idade. 

Rose Nery Nobre de Melo integrou-a no pioneiro trabalho sobre as Mulheres portuguesas na resistência, intercalando a “Biografia Prisional” com o relato de Sofia Ferreira. 

Antónia Balsinha incluiu o seu nome no estudo pioneiro que fez sobre o papel das mulheres de Alhandra na resistência ao fascismo nos anos 40, tendo-a entrevistado a 30 de setembro de 2000 [As Mulheres de Alhandra na Resistência. Anos quarenta, século XX]

Rui Daniel Galiza e João Pina encerraram a obra Por teu livre pensamento com o seu depoimento. 

João Céu e Silva ouviu-a pormenorizadamente no âmbito do livro Álvaro Cunhal e as mulheres que tomaram partido

Feminae - Dicionário Contemporâneo, editado em 2013, inseriu a sua biografia.


[João Esteves]
[in João Céu e Silva, Álvaro Cunhal e as mulheres que tomaram partido, Edições ASA, 2006]